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Olho para a família da igreja, especialmente para os que têm menos de 35 anos, e que estão tomando decisões muito importantes para a vida. Eles não refletem mais simplesmente as atitudes e crenças de seus pais, professores ou pastores. Estão testando esses valores por si mesmos, decidindo se irão mantê-los, modificá-los ou trocá-los por algo totalmente diferente.

Então, eu penso nos muitos jovens que estão saindo da igreja, e isso me angustia profundamente. É difícil saber o número exato, mas não ficaria surpreso se metade das pessoas que crescem nessa família mundial se afastam por um motivo ou por outro. E mesmo que não sejam tantos, os números ainda são altos, muito altos.

Por que tantos deixam a igreja? Arrisco-me a simplificar um assunto tão relevante, mas quero apresentar algumas reflexões que tomaram forma em minha mente ao longo dos anos, e que, recentemente, ganharam um crescente senso de urgência para mim.

Adolescentes 

Há muitos anos, aconteceu algo com um jovem que era muito próximo de mim. Ele estava lutando contra várias questões ao mesmo tempo, e não era fácil para ele se levantar e ir para a igreja todos os sábados. Certo sábado de manhã, ele chegou à porta da igreja um pouco atrasado, usando calça jeans. O primeiro ancião, quando o viu, disse: “Você não está vestido de maneira apropriada. Vá para casa e troque de roupa”. Ele foi para casa e não voltou mais.

Ali começou a sua longa jornada pelo deserto espiritual, onde ele passou muito, muito tempo. Mais tarde, ele saiu daquele deserto, porém mais por amor aos seus pais e pela certeza do imenso amor que tinham por ele.

Esse foi incidente o único motivo para ele deixar a igreja? Não. Mas, para ele, foi o momento exato em que a igreja lhe disse: “Você realmente não se encaixa entre as pessoas que frequentam este local. Vá para casa e se adéque aos nossos padrões”.

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Muitos adolescentes decidem deixar a igreja por se sentirem “marcados”. Eles se sentem indignos; sentem-se inúteis; não se sentem à vontade dentro da igreja para debater questões sobre estilo de vida e comportamento que eles e seus amigos estão enfrentando. Poderíamos fazer uma longa lista dessas questões: atividades sociais, música e entretenimento, relacionamentos e sexualidade, a necessidade de expressar um crescente senso de individualidade e independência. Os jovens falam sobre essas coisas entre si, com o sentimento de que serão condenados se alguém os ouvir.

Como podemos compreender os adolescentes de maneira mais adequada?

Faça-o de modo pessoa Pense na sua própria família, em seus filhos. É difícil seu filho ou sua filha “merecerem” algo de você? Claro que não! Eles são sangue do seu sangue, carne da sua carne.

Se tomarmos tempo para considerar cada jovem de nossa congregação como nossos próprios filhos e filhas, haveria uma incrível mudança de visão. Somente quando o adolescente sente na comunidade da igreja o mesmo tipo de calor que sente (ou, pelo menos, deveria sentir) na intimidade da sua família, poderemos encontrar soluções.

Isso precisa ser algo pessoal. Essa não é uma tarefa que deve ser delegada ao pastor de jovens, aos desbravadores ou à Escola Sabatina. É a minha atitude para com os jovens da minha congregação que faz a diferença. Como eles reagem às minhas palavras e atitude para com eles?

Contextualize  Os adolescentes falam e fazem “loucuras”; simplesmente fazem. São adolescentes, e falar e fazer “loucuras” está dentro da normalidade deles. É natural a eles testar coisas novas, fazer escolhas, perturbar e abalar a rotina. Pode ser pela pressão do grupo, por um ato de rebeldia ou simplesmente pelo fato de que cresceram em um mundo (o “mundo adventista”) e querem experimentar, vivenciar um “outro mundo”. É muito simples: os valores dos pais não são transmitidos geneticamente. O adolescente está testando e questionando – esse é um processo natural a essa etapa da jornada. Portanto, precisamos estender a tolerância e a paciência e estar dispostos a ampliar a nossa visão.

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Lembre-se: você já passou por isso e também cometeu erros. Muitos erros!  Você consegue se lembrar de quando era adolescente? Às vezes, você não estava satisfeito consigo mesmo. Você tinha consciência de tudo o que acontecia: percebia cada espinha no seu rosto, cada falha no seu modo de agir e sentia que era extremamente vulnerável à opinião dos outros.

Uma palavra impensada falada por um membro mais velho da congregação pode ter enormes consequências para um jovem cuja autoimagem é facilmente danificada. Do mesmo modo, algumas palavras de incentivo podem ter um impacto positivo que não pode ser medido.

Jovens e universitários

Há os que sobrevivem à adolescência e ainda estão nos bancos da igreja, pelo menos na maioria dos sábados. Estão terminando os estudos, embarcando na carreira profissional e formando suas famílias. O que faz a diferença entre os que criam raízes fortes em uma comunidade de crentes e os que se movem vagarosamente em direção à porta?

Relevância  Pense em um grupo de jovens amigos jovens, que ocasionalmente se reúnem para conversar. Eles falam sobre vários assuntos do interesse deles. E, às vezes, conversam sobre a igreja. Para eles, perguntas como estas são muito importantes: “Quão relevante é o adventismo? Será que ele tem algo importante a dizer sobre questões da vida cotidiana, justiça social, pobreza e direitos humanos, meio ambiente, ética, economia? Na prática, que diferença realmente faz o rótulo de ‘adventista’?”.

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Para muitos jovens, ver como essas perguntas são respondidas pela igreja pode determinar se eles ficam ou saem. Estão desencantados com a religião centralizada apenas no futuro e que negligencia completamente o presente. Não que eles tenham deixado de crer no que a igreja ensina, mas perderam a fé na habilidade dela de falar sobre o significado da vida do dia a dia. Estão frustrados ao perceber a falta de vontade da igreja em dar o mesmo peso moral e teológico aos assuntos que mais afetam a sociedade.

Comunidade  Ainda mais importante é que, para muitos jovens, a igreja não proporciona os laços comunitários apropriados à sua expectativa. Um jovem me escreveu recentemente: “Quando alguém está passando por uma dificuldade, será que pensa imediatamente em procurar a igreja porque sabe que será amado e compreendido? Ou a igreja é o último lugar para alguém se abrir e pedir ajuda? Geralmente, é a última opção”.

Para jovens que vivem num mundo pós-moderno, estar “certo” vai levá-lo somente até determinado ponto. Você pode falar a verdade com eloquência, pode estar correto em cada detalhe, pode citar capítulos e versículos, e, mesmo assim, eles vão sair da igreja se não sentirem uma profunda e calorosa aceitação.

Propósito e confiança  Os jovens também se afastam da igreja porque estão cheios de ideias, opiniões e energia, mas não encontram lugar para compartilhá-las dentro da igreja. Não que creiam que a igreja não seja importante para eles; ao contrário, creem que eles não são importantes para a igreja! Assim, podem permanecer dentro por um tempo, por uma questão familiar ou social, mas, no fundo, não sentem mais que pertencem a essa comunidade.

Chamado à ação

Não tenho palavras para expressar a profundidade da minha convicção de que devemos dar aos jovens um lugar importante na igreja. Isso não deve ser apenas “mantê-los ocupados”. Devemos dar-lhes um alto nível de confiança, incluindo-os nas decisões importantes da igreja, e procurar envolvê-los de um modo que diga: “Queremos ouvir a voz de vocês”.

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Tanto para os adolescentes como para os jovens, “confiança” é o pivô sobre o qual giram muitas dessas questões. Não o tipo de confiança que diz: “Vamos lhe dar tal responsabilidade e, após um tempo, vamos lhe avaliar”. Ao contrário, falo de um tipo de confiança que liberta e capacita os jovens a serem participantes no planejamento do culto e do testemunho de sua congregação; uma confiança que reconhece que alguém não precisa ter 40, 50 ou 60 anos de idade para ter um fervoroso desejo de servir a Deus; uma confiança que reconhece que o seu amor pela igreja é tão profundo quanto o meu; e que eles também escolheram esse lugar como seu lar espiritual.

Será que a atitude deles em relação a essas coisas, às vezes, pode ser diferente da minha expectativa? Sim, talvez. Corremos algum risco? Pode ser. Porém, o risco de não confiar em nossos jovens é muito maior. Pois, se não confiarmos neles, confirmarmos de verdade, eles simplesmente irão embora.

O pastor Jan Paulsen foi presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia entre 1999 e 2010. Ele possui doutorado em teologia pela Universidade de Tübingen, Alemanha. Retirado de Adventist World, outubro de 2009, p. 8-10 (adaptado).