Posts com Tag ‘Jan Paulsen’

leaving_919411938

Olho para a família da igreja, especialmente para os que têm menos de 35 anos, e que estão tomando decisões muito importantes para a vida. Eles não refletem mais simplesmente as atitudes e crenças de seus pais, professores ou pastores. Estão testando esses valores por si mesmos, decidindo se irão mantê-los, modificá-los ou trocá-los por algo totalmente diferente.

Então, eu penso nos muitos jovens que estão saindo da igreja, e isso me angustia profundamente. É difícil saber o número exato, mas não ficaria surpreso se metade das pessoas que crescem nessa família mundial se afastam por um motivo ou por outro. E mesmo que não sejam tantos, os números ainda são altos, muito altos.

Por que tantos deixam a igreja? Arrisco-me a simplificar um assunto tão relevante, mas quero apresentar algumas reflexões que tomaram forma em minha mente ao longo dos anos, e que, recentemente, ganharam um crescente senso de urgência para mim.

Adolescentes 

Há muitos anos, aconteceu algo com um jovem que era muito próximo de mim. Ele estava lutando contra várias questões ao mesmo tempo, e não era fácil para ele se levantar e ir para a igreja todos os sábados. Certo sábado de manhã, ele chegou à porta da igreja um pouco atrasado, usando calça jeans. O primeiro ancião, quando o viu, disse: “Você não está vestido de maneira apropriada. Vá para casa e troque de roupa”. Ele foi para casa e não voltou mais.

Ali começou a sua longa jornada pelo deserto espiritual, onde ele passou muito, muito tempo. Mais tarde, ele saiu daquele deserto, porém mais por amor aos seus pais e pela certeza do imenso amor que tinham por ele.

Esse foi incidente o único motivo para ele deixar a igreja? Não. Mas, para ele, foi o momento exato em que a igreja lhe disse: “Você realmente não se encaixa entre as pessoas que frequentam este local. Vá para casa e se adéque aos nossos padrões”.

ScreenHunter_02 Dec. 18 20.49

Muitos adolescentes decidem deixar a igreja por se sentirem “marcados”. Eles se sentem indignos; sentem-se inúteis; não se sentem à vontade dentro da igreja para debater questões sobre estilo de vida e comportamento que eles e seus amigos estão enfrentando. Poderíamos fazer uma longa lista dessas questões: atividades sociais, música e entretenimento, relacionamentos e sexualidade, a necessidade de expressar um crescente senso de individualidade e independência. Os jovens falam sobre essas coisas entre si, com o sentimento de que serão condenados se alguém os ouvir.

Como podemos compreender os adolescentes de maneira mais adequada?

Faça-o de modo pessoa Pense na sua própria família, em seus filhos. É difícil seu filho ou sua filha “merecerem” algo de você? Claro que não! Eles são sangue do seu sangue, carne da sua carne.

Se tomarmos tempo para considerar cada jovem de nossa congregação como nossos próprios filhos e filhas, haveria uma incrível mudança de visão. Somente quando o adolescente sente na comunidade da igreja o mesmo tipo de calor que sente (ou, pelo menos, deveria sentir) na intimidade da sua família, poderemos encontrar soluções.

Isso precisa ser algo pessoal. Essa não é uma tarefa que deve ser delegada ao pastor de jovens, aos desbravadores ou à Escola Sabatina. É a minha atitude para com os jovens da minha congregação que faz a diferença. Como eles reagem às minhas palavras e atitude para com eles?

Contextualize  Os adolescentes falam e fazem “loucuras”; simplesmente fazem. São adolescentes, e falar e fazer “loucuras” está dentro da normalidade deles. É natural a eles testar coisas novas, fazer escolhas, perturbar e abalar a rotina. Pode ser pela pressão do grupo, por um ato de rebeldia ou simplesmente pelo fato de que cresceram em um mundo (o “mundo adventista”) e querem experimentar, vivenciar um “outro mundo”. É muito simples: os valores dos pais não são transmitidos geneticamente. O adolescente está testando e questionando – esse é um processo natural a essa etapa da jornada. Portanto, precisamos estender a tolerância e a paciência e estar dispostos a ampliar a nossa visão.

family

Lembre-se: você já passou por isso e também cometeu erros. Muitos erros!  Você consegue se lembrar de quando era adolescente? Às vezes, você não estava satisfeito consigo mesmo. Você tinha consciência de tudo o que acontecia: percebia cada espinha no seu rosto, cada falha no seu modo de agir e sentia que era extremamente vulnerável à opinião dos outros.

Uma palavra impensada falada por um membro mais velho da congregação pode ter enormes consequências para um jovem cuja autoimagem é facilmente danificada. Do mesmo modo, algumas palavras de incentivo podem ter um impacto positivo que não pode ser medido.

Jovens e universitários

Há os que sobrevivem à adolescência e ainda estão nos bancos da igreja, pelo menos na maioria dos sábados. Estão terminando os estudos, embarcando na carreira profissional e formando suas famílias. O que faz a diferença entre os que criam raízes fortes em uma comunidade de crentes e os que se movem vagarosamente em direção à porta?

Relevância  Pense em um grupo de jovens amigos jovens, que ocasionalmente se reúnem para conversar. Eles falam sobre vários assuntos do interesse deles. E, às vezes, conversam sobre a igreja. Para eles, perguntas como estas são muito importantes: “Quão relevante é o adventismo? Será que ele tem algo importante a dizer sobre questões da vida cotidiana, justiça social, pobreza e direitos humanos, meio ambiente, ética, economia? Na prática, que diferença realmente faz o rótulo de ‘adventista’?”.

Hands on a globe

Para muitos jovens, ver como essas perguntas são respondidas pela igreja pode determinar se eles ficam ou saem. Estão desencantados com a religião centralizada apenas no futuro e que negligencia completamente o presente. Não que eles tenham deixado de crer no que a igreja ensina, mas perderam a fé na habilidade dela de falar sobre o significado da vida do dia a dia. Estão frustrados ao perceber a falta de vontade da igreja em dar o mesmo peso moral e teológico aos assuntos que mais afetam a sociedade.

Comunidade  Ainda mais importante é que, para muitos jovens, a igreja não proporciona os laços comunitários apropriados à sua expectativa. Um jovem me escreveu recentemente: “Quando alguém está passando por uma dificuldade, será que pensa imediatamente em procurar a igreja porque sabe que será amado e compreendido? Ou a igreja é o último lugar para alguém se abrir e pedir ajuda? Geralmente, é a última opção”.

Para jovens que vivem num mundo pós-moderno, estar “certo” vai levá-lo somente até determinado ponto. Você pode falar a verdade com eloquência, pode estar correto em cada detalhe, pode citar capítulos e versículos, e, mesmo assim, eles vão sair da igreja se não sentirem uma profunda e calorosa aceitação.

Propósito e confiança  Os jovens também se afastam da igreja porque estão cheios de ideias, opiniões e energia, mas não encontram lugar para compartilhá-las dentro da igreja. Não que creiam que a igreja não seja importante para eles; ao contrário, creem que eles não são importantes para a igreja! Assim, podem permanecer dentro por um tempo, por uma questão familiar ou social, mas, no fundo, não sentem mais que pertencem a essa comunidade.

Chamado à ação

Não tenho palavras para expressar a profundidade da minha convicção de que devemos dar aos jovens um lugar importante na igreja. Isso não deve ser apenas “mantê-los ocupados”. Devemos dar-lhes um alto nível de confiança, incluindo-os nas decisões importantes da igreja, e procurar envolvê-los de um modo que diga: “Queremos ouvir a voz de vocês”.

post671

Tanto para os adolescentes como para os jovens, “confiança” é o pivô sobre o qual giram muitas dessas questões. Não o tipo de confiança que diz: “Vamos lhe dar tal responsabilidade e, após um tempo, vamos lhe avaliar”. Ao contrário, falo de um tipo de confiança que liberta e capacita os jovens a serem participantes no planejamento do culto e do testemunho de sua congregação; uma confiança que reconhece que alguém não precisa ter 40, 50 ou 60 anos de idade para ter um fervoroso desejo de servir a Deus; uma confiança que reconhece que o seu amor pela igreja é tão profundo quanto o meu; e que eles também escolheram esse lugar como seu lar espiritual.

Será que a atitude deles em relação a essas coisas, às vezes, pode ser diferente da minha expectativa? Sim, talvez. Corremos algum risco? Pode ser. Porém, o risco de não confiar em nossos jovens é muito maior. Pois, se não confiarmos neles, confirmarmos de verdade, eles simplesmente irão embora.

O pastor Jan Paulsen foi presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia entre 1999 e 2010. Ele possui doutorado em teologia pela Universidade de Tübingen, Alemanha. Retirado de Adventist World, outubro de 2009, p. 8-10 (adaptado).

Anúncios

Vamos conversar?

Publicado: 16/04/2013 em Comunidade, Missão
Tags:

Let’s Talk – Brasil

Em novembro de 1848, Ellen White teve uma visão que resultou em profundas ações para o desenvolvimento da igreja. Ela algumas vezes é chamada de visão das “torrentes de luz”. Ellen viu que Tiago White deveria publicar
um “pequeno jornal”, que levaria a mensagem do advento ao redor do mundo como torrentes de luz.

O que me impressiona não é apenas a visão propriamente dita, mas a atitude de Ellen White após receber a visão; sua determinação em ver o plano de Deus em ação, apesar dos que diziam ser impraticável, se não impossível. Ela permaneceu firme contra a desaprovação de outros líderes, como José Bates, que pensava que o marido dela, Tiago, fosse mais eficiente como pregador do que como escritor. Ellen também resistiu às dúvidas de Tiago, que pensava nas enormes dificuldades financeiras que envolveriam a impressão e a distribuição de um jornal. Ela insistiu: “Ele deve escrever, escrever, escrever e seguir em frente pela fé” (Vida e ensinos, p. 125-126).

É fácil esquecer que Ellen tinha apenas 21 anos de idade.  

Nosso bem mais valioso 

Em 2003, comecei uma série de diálogos com jovens adventistas ao redor do mundo. Demos à série o nome de Let’s Talk (Vamos conversar). Como resultado dessas mais de 30 conversas, estou convencido de que os jovens também têm uma visão para a sua igreja. Eles são criativos, desejam se envolver e, acima de tudo, estão comprometidos com o Senhor e com Sua missão.

Esses diálogos do Let’s Talk ocorreram na televisão, foram transmitidos ao vivo e pela internet. Através desses diálogos, passei a sentir profunda confiança nos jovens. Sim, em alguns momentos fui cético, mas, depois de conversa após conversa com rapazes e moças entre 15 e 25 anos de idade, estou convencido de que eles amam a igreja. É ali que querem estar. É nela que querem servir ao Senhor. Eles estão prontos. E eles têm muito a contribuir.

Os diálogos foram muito abrangentes, às vezes com preocupações locais, assuntos relativos a um determinado contexto e cultura. Mas houve também uma série de perguntas sobre temas globais, que ouvi em espanhol ou swahili, português ou inglês.

Let’s Talk – Nova York

Eles se importam

1. Procurando um lugar e uma voz – No cerne do que os jovens dizem, geralmente estão estas perguntas: “Por que não nos permitem falar mais?”; “Por que não podemos nos envolver mais na liderança?”. Essas perguntas são exigentes, mas são justas. Eles não estão perguntando: “Por que o Comitê Executivo da Associação Geral não tem mais jovens como membros?”. Eles não perguntam por que não podem ser membros das divisões, uniões ou das comissões das associações. Em vez disso, eles querem ter mais responsabilidades em suas congregações locais.

Por que somos tão relutantes em deixar que participem? Lembre-se dos doze que Cristo escolheu. Lembre-se dos pioneiros da igreja.

Às vezes, nos esquecemos do caminho que trilhamos, dos erros que cometemos. Esquecemos que nós também, no início, caminhamos inseguros e trôpegos. Isso é normal, até que nossos músculos fiquem mais fortes, para caminhar com firmeza e saber onde pisar.

Muitas vezes exageramos o valor da experiência. A experiência é importante, mas a personalidade é mais importante: o modo como lidamos com as pessoas, nossa capacidade de amar e de cuidar da igreja, e como ser responsável. Essas coisas são mais significativas. Se os líderes colocarem o homem certo ou a mulher certa no lugar certo, obterão a experiência de que precisam. Mas se colocarem a pessoa errada numa posição, independente da idade, nunca haverá êxito.

2. Definindo limites – Nesses diálogos, houve muitas perguntas sobre vestuário, joias, entretenimento, música e relacionamentos.

A mente dos jovens pode ser bastante “legalista” no sentido de ver o mundo em linhas distintas e definidas. Muitos procuram definir os limites com segurança e clareza. Alguns jovens querem fórmulas e são persistentes. Muitas vezes não estão satisfeitos “apenas” com princípios; querem respostas específicas. São levados pela necessidade de se definir, de definir os limites ao redor deles: “Onde eu me encaixo em tudo isso?”; “Será que gosto de onde estou?”; “Até compreendo os limites, mas por que eles existem?”; “Em que consiste uma vida de obediência a Deus?”.

Assim como muitos jovens com quem conversei, eu também cresci em um lar adventista. Quando cheguei aos 20 anos de idade, era bem legalista em meu modo de pensar. Era impaciente com aqueles que diziam: “Bem, talvez sim, talvez não”. Esses “talvez” causavam problemas. No entanto, aprendi, por experiência própria, que há situações em que se deve deixar espaço para que as pessoas cresçam, se desenvolvam e descubram a vontade de Deus para elas.

Há confiança aí, mas também uma grande responsabilidade. Por isso, lembro aos jovens: não abusem de sua liberdade; não ajam com leviandade.

Let’s Talk – Oakwood

A escolha da música foi um tema recorrente. Voltamos ao assunto várias vezes porque é uma preocupação legítima para os jovens. Basta observar o papel desempenhado pela música em qualquer culto realizado por jovens. Ela ocupa uma parte tão importante da vida deles que as perguntas eram realmente sérias.

Sei que algumas pessoas, ao ouvir essa conversa, dirão: “Por que ele simplesmente não diz como deve ser essa música, estabelece um limite, bem distinto?”. E posso apenas responder: “Vejam, esses são os nossos filhos; falem com eles. Seus filhos estão à procura de uma legítima identidade na igreja. Ajudem esses jovens a encontrá-la. Não os mandem embora. Ajudem esses rapazes e moças a compreender a confiança e a responsabilidade depositada sobre eles”.

3. Encontrando uma missão –  Os jovens estão preocupados com o fato de que muitos amigos estão saindo da igreja. Essa preocupação foi levantada várias vezes. Geralmente pergunto: “Diga-me, por que eles saíram?”.

A resposta era: “A igreja é muito antiquada”; “Não há tolerância”; “A igreja é muito negativa. Somos criticados sobre nossa aparência e nossas escolhas”.

E eu dizia: “E a amizade? O seu amigo saiu porque perdeu o senso de comunidade? Você era, realmente, amigo dele?”.

Frequentemente, havia silêncio, mas depois vinha a resposta: “Sim, talvez nós também tenhamos falhado com alguns deles”.

Então, eu perguntava: “Você, então, não deveria procurá-los?”.

Os jovens precisam receber uma responsabilidade maior para ministrar por seus companheiros. Esse é um desafio para o qual só eles estão equipados. Esse deve ser um ministério definido, reconhecido na igreja local, assim como a Escola Sabatina, ou o diaconato, ou o ancionato. Vamos dar aos jovens um espaço oficial, um lugar de confiança. Eles irão se apegar a essa responsabilidade, e surgirá algo novo e poderoso.

Let’s Talk – El Salvador

Confiemos neles

Estamos perdendo muitos dos nossos jovens, muita gente com menos de 25 anos de idade. É difícil saber o número exato, mas não ficaria surpreso se metade das pessoas que crescem nessa família mundial se afastam por um motivo ou por outro. E mesmo que não sejam tantos, os números ainda são altos, muito altos.

Sempre acreditei que o amanhã está nas mãos dos jovens, e essa realidade deveria se refletir na igreja hoje. Essa convicção não mudou durante minhas conversas no Let’s Talk. Ao contrário, se tornou mais forte e definida. Esses diálogos acrescentaram um senso de urgência: O que está nos impedindo? Precisamos dar aos jovens espaço e oportunidade para crescer.

Minha mensagem para a igreja é para que confie nos jovens, converse com eles, ouça o que eles têm a dizer, mostre que confia neles, dando-lhes oportunidades e responsabilidades. Será que eles vão fazer tudo certo em 100 por cento do tempo? Não, mas ninguém faria.

Confiem neles, e eles ainda estarão aqui amanhã e depois de amanhã.

O pastor Jan Paulsen foi presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia entre 1999 e 2010. Ele possui doutorado em teologia pela Universidade de Tübingen, Alemanha. Retirado de Adventist World, outubro de 2008, p. 8-10; reimpresso em Jan Paulsen, Where Are We Going? (Nampa, ID: Pacific Press, 2011), p. 43-46.