Deus na pós-modernidade?

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Com a chamada “pós-modernidade”, a igreja cristã foi levada para as margens da cultura ocidental. É cada vez mais difícil alcançar a sociedade com a mensagem do evangelho de Jesus Cristo.

Quando percebemos essas tendências, é difícil imaginar como a ação de Deus poderia ser vista na pós-modernidade. Mas seria a pós-modernidade uma estratégia do inimigo, ou é algo que pode ser usado por Deus? Seria ela, talvez, um trampolim necessário para levar a humanidade para mais perto dos propósitos de Deus?

Como alguém que acredita que Deus está presente e atuante no mundo, eu não consigo imaginar um ambiente que deixe Deus “sem testemunho” (Atos 14:17). Eu tenho a convicção de que a mão de Deus está por trás dessas mudanças e creio que estamos caminhando para o lugar que Ele deseja. Abaixo, estão oito motivos principais pelos quais eu penso dessa maneira.

1. Senso de fragilidade

Pós-modernos definitivamente não possuem a autoconfiança dos modernos. Muito mais do que seus avós, eles veem a si mesmos como pessoas frágeis e imperfeitas. Com frequência eles vêm de famílias desestruturadas. Quando compartilham suas experiências familiares com os amigos, descobrem que a situação destes não é muito melhor. Em consequência disso, pós-modernos possuem um senso aguçado de fragilidade, uma profunda busca de cura interior. Embora o senso de fragilidade possa levar ao desespero, também pode abrir caminho às refrescantes ondas do evangelho. Uma pessoa precisa perceber que tem um problema antes que possa se interessar na solução.

2. Humildade e autenticidade

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Vivendo numa época em que a imagem é dominante, pós-modernos valorizam bastante a humildade, a honestidade e a autenticidade nos relacionamentos interpessoais. É melhor ser honesto sobre suas fraquezas e dificuldades do que criar uma imagem falsa. Esse princípio está intimamente ligado ao anterior. Pós-modernos desejam compartilhar honestamente esse senso com amigos que consideram confiáveis.

Humildade e autenticidade, obviamente, estão no cerne da fé cristã. A confissão dos pecados e o arrependimento não é outra coisa senão contar a verdade sobre si mesmo. No modernismo, a humildade era considerada degradante demais para os valores humanos. O pós-modernismo, por outro lado, vê a autenticidade como uma virtude muito valiosa. Deus está levando a cultura a um ponto em que seja valorizada uma das grandes verdades da mensagem cristã (João 3:19-20).

3. Busca de identidade e propósito

Pós-modernos buscam um senso claro de identidade pessoal, embora questionem se podem obtê-la sozinhos. Em sua experiência, as reivindicações de identidade feitas por outros com frequência se mostram falhas ou inventadas. Com poucos ou com nenhum modelo de vida, pós-modernos tendem a ter crises de identidade. Eles podem experimentar várias “identidades”, mas acabam sem qualquer pista de qual identidade é realmente deles.

Essa abertura fornece oportunidade para o tipo de identidade que pode ser adquirida ao se descobrir seu valor próprio. Uma fé cristã equilibrada ajuda as pessoas a descobrirem por que estão aqui, de onde vieram e para onde estão indo. Pós-modernos desejam ter uma vida com senso de missão e propósito, a sensação de que a vida deles faz diferença no mundo. De acordo com a Bíblia, Deus tem um propósito para a vida de cada pessoa (Jeremias 1:5).

4. Necessidade de comunidade

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Pós-modernos possuem uma intensa necessidade de comunidade. É incrível ver como os jovens e adolescentes atuais se relacionam uns com os outros. Ao contrário da minha geração, é muito menos provável que eles saiam em pares. Eles costumam sair em grupos de cinco (por exemplo, duas garotas e três rapazes) ou de sete (por exemplo, cinco garotas e dois rapazes), sempre em rodas de amigos.

A comunidade (em grego, koinonia) é fundamental para a fé do Novo Testamento. Quando os cristãos aprenderem a experimentar e a expressar o tipo de comunidade ensinada no Novo Testamento, eles verão os pós-modernos bastante interessados no que eles têm a oferecer. Novamente, a mão de Deus parece estar levando a cultura para mais perto do ideal bíblico.

5. Inclusão

Na atitude pós-moderna, existe um senso de inclusão por aquilo que é exótico, fora do comum, ou apenas diferente. As principais forças por trás da inclusão pós-moderna são a globalização e a urbanização. As grandes cidades se tornaram o ambiente no qual uma variedade de etnias, culturas, gostos e crenças entram em contato uma com a outra. E, para que exista uma boa convivência, é necessário ouvir e respeitar os outros. De acordo com a Bíblia, o ideal de Deus é levar as pessoas da exclusão à inclusão. A maior barreira contra a inclusão não é o coração de Deus, mas os corações humanos.

6. Espiritualidade

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A geração mais nova tende a ser mais espiritualizada do que a anterior. Mesmo entre artistas, atletas e acadêmicos, as pessoas estão se tornando mais abertas sobre sua fé e práticas. Embora exista forte desconfiança em relação à religião tradicional e à Bíblia (o que, na verdade, é bom, como veremos em outro momento), os pós-modernos estão abertos ao diálogo espiritual com alguém que tenha uma experiência espiritual prática e autêntica.

7. Tolerância de opostos

Uma das características mais fascinantes do pós-modernismo é a sua capacidade de tolerar os opostos. Na área filosófica, os gregos defendiam que o oposto da verdade é algo falso. O modernismo científico estava baseado na lógica grega ocidental. Mas o pensamento hebraico-bíblico pode com frequência ver ideias contrastantes não em termos de verdadeiro ou falso, mas como uma tensão entre dois polos. Por exemplo, segundo a Bíblia, Deus é imortal; contudo, Jesus Cristo, o Deus-homem, experimentou a morte. A rejeição pós-moderna da lógica grega levou o mundo para mais perto da lógica hebraico-bíblica. Isso significa que a era pós-moderna pode ser uma época melhor para se compreender a Bíblia do que as gerações passadas.

8. Verdade como história

Para os pós-modernos, a verdade não se encontra na igreja, na Bíblia (como tradicionalmente compreendida), ou na ciência. Eles buscam a verdade na comunidade e na contação de história. O conceito de verdade como história fornece um poderoso corretivo para a maneira como a Bíblia é usada tradicionalmente. Muitos se frustram com o fato de que a Bíblia não foi escrita como uma apresentação lógica e organizada de doutrinas. Talvez você desejasse que Deus tivesse sido um pouco mais lógico sobre a questão da verdade.

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Não sei exatamente em que Deus estava pensando quando escolheu que a Bíblia fosse produzida da maneira como foi, mas só posso presumir que a Bíblia é precisamente o que Deus gostaria que fosse. Em vez de forçar a Bíblia a dizer o que eu quero que diga, devo tomar a Bíblia tal como ela é e buscar entender o que ela me diz a respeito de Deus. Deus decidiu que a Bíblia fosse uma coleção de histórias, poemas e cartas em vez de ser uma apresentação coerente de doutrinas cuidadosamente definidas. Então, o pós-modernismo pode ser nossa melhor oportunidade de explorar plenamente o que essas histórias dizem sobre o caráter e os propósitos de Deus.

Há outro ponto importante sobre a verdade. O que os pós-modernos rejeitam não é tanto a existência de uma verdade absoluta, mas a afirmação de que alguém possui um conhecimento absoluto (ainda que incompleto). A Bíblia concorda que nós não podemos afirmar que temos esse tipo de conhecimento (veja Jeremias 17:9; 1 Coríntios 13:9, 12). Na verdade, quando defendemos um conhecimento absoluto, não estamos defendendo a Bíblia, mas o racionalismo modernista.

Perguntas para discussão:

1. Por que você acha que a transição para a pós-modernidade está acontecendo em nossa época? Em que aspectos a sua igreja precisa mudar a forma de atuação para falar de maneira relevante a essa nova era?

2. Quais aspectos do evangelho podem promover o senso de comunidade entre pessoas que sentem sua própria fragilidade? De que maneira o evangelho, como você o compreende, promove humildade e autenticidade?

3. Fale, em suas próprias palavras, sobre as oito características positivas do pós-modernismo.

4. Enquanto você lê sobre essas oito características da pós-modernidade, quais estratégias pessoais para alcançar pessoas seculares vêm à sua mente? Como você pode incorporar essas estratégias no seu dia a dia? Que tipo de preparo você precisa para executá-las?

5. Em seu círculo de amigos e parentes, quem conhece melhor a mentalidade pós-moderna? Como essa pessoa pode ajudá-lo em seu objetivo de alcançar pessoas seculares?

Jon Paulien, Ph.D. (Andrews University), é diretor da Faculdade de Teologia da Universidade de Loma Linda (EUA). Ele é especialista no livro de Apocalipse e na relação entre fé e cultura contemporânea.

Adaptado de “God’s mighty acts in a changing world (Part 1 of 2)”, Ministry, fevereiro de 2006, p. 10-12; Everlasting Gospel, Ever-changing World: Introducing Jesus to a Skeptical Generation (Boise, ID: Pacific Press, 2008), p. 57-64; Reaching and Winning Secular People: A Strategy Manual (General Conference Department of Personal Ministries), p. 15-21.

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comentários
  1. Enoch Melo disse:

    Fabulosa abordagem…estarei anexando a minha monografia

  2. Olá Enoch, você pode ver uma versão um pouco mais extensa no novo site: http://missaoposmoderna.com.br/deus-na-pos-modernidade/

  3. Charles Washington disse:

    Parabéns. Instrutivo, edificante e inspirador.

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