Arquivo da categoria ‘Missão’

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Quando falamos em “missão”, geralmente pensamos em pessoas que moram em lugares distantes, cuja língua e cultura são radicalmente diferentes da nossa. […] Mas a maioria dos cristãos ocidentais acharia mais fácil compartilhar sua fé em Fiji, na Indonésia ou em Zimbábue do que em Nova York, Sydney ou Londres [ou São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre]. Portanto, é tempo de pensar seriamente sobre a missão no mundo ocidental. […]

Hoje, os adventistas estão empenhados como nunca antes no evangelismo público. Na maioria das igrejas, acontecem evangelismo por satélite, seminários proféticos e vários programas usados como pontos de contato (cursos sobre como deixar de fumar, saúde, relacionamento familiar). Pessoas continuam a ser alcançadas com a mensagem do evangelho. Existem testemunhos notáveis de conversão.

Mas precisamos ser honestos com nós mesmos. Uma típica igreja adventista não está transformando sua comunidade local, e muito menos o mundo, através de suas atividades. Não estamos afetando significativamente o coração da cultura ocidental. […]

Muitos preferem deixar a audiência [secular e pós-moderna] fora de seu alcance de consideração. Pensam que não devemos ir ao encontro das pessoas seculares nos próprios termos delas. Dizem o seguinte: “A verdade é a verdade, e ela não deve ser diluída para agradar aqueles que não seguem a Deus. Nosso trabalho é apresentar a mensagem como a conhecemos e amamos, e, se os outros não gostam dela, é problema deles”. […]

Deus vai ao encontro

Contudo, a Bíblia é clara sobre a importância de se dar cuidadosa atenção à cultura da audiência. “As lições deviam ser dadas à humanidade na linguagem da própria humanidade” (Ellen White, O desejado de todas as nações, p. 34). Quanto mais você se familiariza com a Bíblia, mais claro se torna que cada parte da Palavra de Deus foi dada no tempo, local, idioma e cultura de seres humanos específicos.

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Paulo, com seu título de “Ph.D.”, expressa a revelação de Deus de maneira diferente do pescador Pedro. João escreve num grego simples, claro, quase infantil. Por outro lado, o autor de Hebreus escreve num grego complexo e literário. Em Mateus, você vê alguém que compreende a mentalidade judaica e busca alcançá-la. Marcos, por outro lado, alcança a mentalidade gentílica. […]

A linguagem do Novo Testamento não era o grego erudito de Platão e Aristóteles, não era o grego das leis e dos discursos. Era a linguagem do dia a dia! Era a linguagem que as pessoas falavam nas ruas. O Novo Testamento não foi escrito numa linguagem celestial, nem na linguagem da elite cultural, mas na linguagem do dia a dia de pessoas do dia a dia. No Novo Testamento, Deus saiu de Seu caminho para ir ao encontro das pessoas onde elas estavam!

Ellen White afirma:

As Escrituras foram dadas aos seres humanos, não em uma cadeia contínua de ininterruptas declarações, mas parte por parte através de sucessivas gerações, à medida que Deus, em Sua providência, via oportunidade apropriada para impressionar as pessoas nos vários tempos e diversos lugares. […]

A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira de pensar e exprimir-se de Deus. Esta é da humanidade. Deus, como escritor, não Se acha representado. […]

O Senhor deu Sua Palavra justamente pela maneira que queria que ela viesse. Deu-a por meio de diferentes escritores, tendo cada um sua própria individualidade, embora repetindo a mesma história. […] Eles não dizem as coisas exatamente no mesmo estilo. Cada um tem uma experiência sua, própria, e essa diversidade amplia e aprofunda o conhecimento que vem satisfazer as necessidades das variadas mentes (Mensagens escolhidas, v. 1, p. 19, 21-22, grifo nosso).

Tudo para com todos

É esse princípio que motivou Paulo em suas atividades missionárias. A mais clara reflexão de Paulo sobre o assunto, 1 Coríntios 9:19-23, é uma ordem divina para se desenvolver o ministério com pessoas seculares. Paulo diz que alcançar pessoas que são diferentes de nós requer um sacrifício considerável. Se nós temos pouco sucesso em compartilhar o evangelho com pessoas secularizadas, é porque não escolhemos fazer esse sacrifício.

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Embora seja livre de todos, fiz-me escravo de todos, para ganhar o maior número possível de pessoas. Tornei-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da Lei, tornei-me como se estivesse sujeito à Lei (embora eu mesmo não esteja debaixo da Lei), a fim de ganhar os que estão debaixo da Lei. Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (embora não esteja livre da lei de Deus, e sim sob a lei de Cristo), a fim de ganhar os que não têm a Lei. Para com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns. Faço tudo isso por causa do evangelho, para ser co-participante dele (1Co 9:19-23).

Essa é uma ordem para alcançarmos pessoas que são “diferentes” de nós. É uma ordem para aprendermos a falar às pessoas em uma linguagem que faça sentido a elas. […]

Deus nos convida a seguirmos Seu exemplo e irmos ao encontro das pessoas onde elas estão.

Jon Paulien, Ph.D., é diretor da Faculdade de Teologia da Universidade de Loma Linda (EUA). Retirado de Everlasting Gospel, Ever-changing World: Introducing Jesus to a Skeptical Generation (Boise, ID: Pacific Press, 2008), p. 13-18.

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Pastor Kleber Gonçalves

A Nova Semente é o primeiro projeto oficial da Igreja Adventista na América do Sul para alcançar os pós-modernos. Ela faz parte das mais de vinte comunidades similares espalhadas pelo mundo e vinculadas ao Centro de Estudos Seculares e Pós-modernos da sede mundial da igreja.

Para liderar tanto a Nova Semente como esse centro de estudos, foi escolhido o pastor Kleber Gonçalves. Ele possui doutorado (Ph.D.) em missão urbana e pós-modernismo, pela Andrews University (EUA), a mais importante universidade adventista.

Em breve, vou postar trechos de uma entrevista realizada com o pastor Kleber, que explica de maneira mais clara e prática como podemos proclamar o evangelho no contexto pós-moderno. Mas, agora, quero apresentar algumas informações sobre a tese de doutorado desenvolvida por ele.

A tese do pastor Kleber tem como título “A critique of the urban mission of the church in the light of an emerging postmodern condition” (Uma crítica da missão urbana da igreja à luz de uma emergente condição pós-moderna). Ela foi defendida em janeiro de 2005.

Resumo da tese

Este é o resumo que aparece na própria tese:

O mundo está se tornando uma sociedade urbana. A expansão urbana observada no século 20 e no início do século 21 não tem precedentes na história da civilização humana. Ao mesmo tempo, o mundo ocidental experimenta a mudança de paradigma da era moderna para uma condição pós-moderna. Ambos os eventos têm implicações notáveis para a missão da igreja em uma sociedade urbana e em processo de pós-modernização. Marcada pela cosmovisão do modernismo, a igreja experimenta hoje um ostracismo oriundo da condição pós-moderna.

Apesar de a literatura sobre a missão urbana ter crescido nos últimos anos, pouca consideração tem sido dada às questões específicas e às implicações da missão urbana no contexto da pós-modernidade. Por isso, este estudo aborda a relação entre a missão urbana da igreja e a emergência da condição pós-moderna.

Esta pesquisa sobre a missão urbana à luz do ethos pós-moderno se baseia na análise histórica, filosófica, sociológica e cultural das eras moderna e pós-moderna provida, respectivamente, nos capítulos 2 e 3. O capítulo 4 explora a relação entre a missão urbana da igreja e a condição pós-moderna primariamente ao situar o surgimento do pós-modernismo no contexto da urbanização e da globalização. O capítulo 5 apresenta algumas implicações missiológicas e sugere princípios para alcançar a mente pós-moderna em um contexto urbano, a partir das descobertas desta pesquisa.

No início do século 21, o poder centralizador da cidade, adicionado pela influência de um mercado global, torna o meio urbano o locus do pós-modernismo. Consequentemente, os desafios e as oportunidades de uma missão urbana nunca foram tão grandes. Apesar de alguns grandes problemas que o pós-modernismo levanta para a missão, essa corrente sociocultural oferece oportunidades inexistentes há poucas décadas. Portanto, dentro do contexto da interação das forças da urbanização, da globalização e do pós-modernismo, uma revisão profunda das estratégias e dos métodos da missão urbana é vital para o desenvolvimento de igrejas sensíveis ao fenômeno pós-moderno, à medida que a igreja busca atender o seu chamado a participar na missão divina direcionada a uma geração urbana e cada vez mais pós-moderna.

Fonte: Kerygma: revista eletrônica de teologia, 1º semestre de 2008, p. 62.

Vamos conversar?

Publicado: 16/04/2013 em Comunidade, Missão
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Let’s Talk – Brasil

Em novembro de 1848, Ellen White teve uma visão que resultou em profundas ações para o desenvolvimento da igreja. Ela algumas vezes é chamada de visão das “torrentes de luz”. Ellen viu que Tiago White deveria publicar
um “pequeno jornal”, que levaria a mensagem do advento ao redor do mundo como torrentes de luz.

O que me impressiona não é apenas a visão propriamente dita, mas a atitude de Ellen White após receber a visão; sua determinação em ver o plano de Deus em ação, apesar dos que diziam ser impraticável, se não impossível. Ela permaneceu firme contra a desaprovação de outros líderes, como José Bates, que pensava que o marido dela, Tiago, fosse mais eficiente como pregador do que como escritor. Ellen também resistiu às dúvidas de Tiago, que pensava nas enormes dificuldades financeiras que envolveriam a impressão e a distribuição de um jornal. Ela insistiu: “Ele deve escrever, escrever, escrever e seguir em frente pela fé” (Vida e ensinos, p. 125-126).

É fácil esquecer que Ellen tinha apenas 21 anos de idade.  

Nosso bem mais valioso 

Em 2003, comecei uma série de diálogos com jovens adventistas ao redor do mundo. Demos à série o nome de Let’s Talk (Vamos conversar). Como resultado dessas mais de 30 conversas, estou convencido de que os jovens também têm uma visão para a sua igreja. Eles são criativos, desejam se envolver e, acima de tudo, estão comprometidos com o Senhor e com Sua missão.

Esses diálogos do Let’s Talk ocorreram na televisão, foram transmitidos ao vivo e pela internet. Através desses diálogos, passei a sentir profunda confiança nos jovens. Sim, em alguns momentos fui cético, mas, depois de conversa após conversa com rapazes e moças entre 15 e 25 anos de idade, estou convencido de que eles amam a igreja. É ali que querem estar. É nela que querem servir ao Senhor. Eles estão prontos. E eles têm muito a contribuir.

Os diálogos foram muito abrangentes, às vezes com preocupações locais, assuntos relativos a um determinado contexto e cultura. Mas houve também uma série de perguntas sobre temas globais, que ouvi em espanhol ou swahili, português ou inglês.

Let’s Talk – Nova York

Eles se importam

1. Procurando um lugar e uma voz – No cerne do que os jovens dizem, geralmente estão estas perguntas: “Por que não nos permitem falar mais?”; “Por que não podemos nos envolver mais na liderança?”. Essas perguntas são exigentes, mas são justas. Eles não estão perguntando: “Por que o Comitê Executivo da Associação Geral não tem mais jovens como membros?”. Eles não perguntam por que não podem ser membros das divisões, uniões ou das comissões das associações. Em vez disso, eles querem ter mais responsabilidades em suas congregações locais.

Por que somos tão relutantes em deixar que participem? Lembre-se dos doze que Cristo escolheu. Lembre-se dos pioneiros da igreja.

Às vezes, nos esquecemos do caminho que trilhamos, dos erros que cometemos. Esquecemos que nós também, no início, caminhamos inseguros e trôpegos. Isso é normal, até que nossos músculos fiquem mais fortes, para caminhar com firmeza e saber onde pisar.

Muitas vezes exageramos o valor da experiência. A experiência é importante, mas a personalidade é mais importante: o modo como lidamos com as pessoas, nossa capacidade de amar e de cuidar da igreja, e como ser responsável. Essas coisas são mais significativas. Se os líderes colocarem o homem certo ou a mulher certa no lugar certo, obterão a experiência de que precisam. Mas se colocarem a pessoa errada numa posição, independente da idade, nunca haverá êxito.

2. Definindo limites – Nesses diálogos, houve muitas perguntas sobre vestuário, joias, entretenimento, música e relacionamentos.

A mente dos jovens pode ser bastante “legalista” no sentido de ver o mundo em linhas distintas e definidas. Muitos procuram definir os limites com segurança e clareza. Alguns jovens querem fórmulas e são persistentes. Muitas vezes não estão satisfeitos “apenas” com princípios; querem respostas específicas. São levados pela necessidade de se definir, de definir os limites ao redor deles: “Onde eu me encaixo em tudo isso?”; “Será que gosto de onde estou?”; “Até compreendo os limites, mas por que eles existem?”; “Em que consiste uma vida de obediência a Deus?”.

Assim como muitos jovens com quem conversei, eu também cresci em um lar adventista. Quando cheguei aos 20 anos de idade, era bem legalista em meu modo de pensar. Era impaciente com aqueles que diziam: “Bem, talvez sim, talvez não”. Esses “talvez” causavam problemas. No entanto, aprendi, por experiência própria, que há situações em que se deve deixar espaço para que as pessoas cresçam, se desenvolvam e descubram a vontade de Deus para elas.

Há confiança aí, mas também uma grande responsabilidade. Por isso, lembro aos jovens: não abusem de sua liberdade; não ajam com leviandade.

Let’s Talk – Oakwood

A escolha da música foi um tema recorrente. Voltamos ao assunto várias vezes porque é uma preocupação legítima para os jovens. Basta observar o papel desempenhado pela música em qualquer culto realizado por jovens. Ela ocupa uma parte tão importante da vida deles que as perguntas eram realmente sérias.

Sei que algumas pessoas, ao ouvir essa conversa, dirão: “Por que ele simplesmente não diz como deve ser essa música, estabelece um limite, bem distinto?”. E posso apenas responder: “Vejam, esses são os nossos filhos; falem com eles. Seus filhos estão à procura de uma legítima identidade na igreja. Ajudem esses jovens a encontrá-la. Não os mandem embora. Ajudem esses rapazes e moças a compreender a confiança e a responsabilidade depositada sobre eles”.

3. Encontrando uma missão –  Os jovens estão preocupados com o fato de que muitos amigos estão saindo da igreja. Essa preocupação foi levantada várias vezes. Geralmente pergunto: “Diga-me, por que eles saíram?”.

A resposta era: “A igreja é muito antiquada”; “Não há tolerância”; “A igreja é muito negativa. Somos criticados sobre nossa aparência e nossas escolhas”.

E eu dizia: “E a amizade? O seu amigo saiu porque perdeu o senso de comunidade? Você era, realmente, amigo dele?”.

Frequentemente, havia silêncio, mas depois vinha a resposta: “Sim, talvez nós também tenhamos falhado com alguns deles”.

Então, eu perguntava: “Você, então, não deveria procurá-los?”.

Os jovens precisam receber uma responsabilidade maior para ministrar por seus companheiros. Esse é um desafio para o qual só eles estão equipados. Esse deve ser um ministério definido, reconhecido na igreja local, assim como a Escola Sabatina, ou o diaconato, ou o ancionato. Vamos dar aos jovens um espaço oficial, um lugar de confiança. Eles irão se apegar a essa responsabilidade, e surgirá algo novo e poderoso.

Let’s Talk – El Salvador

Confiemos neles

Estamos perdendo muitos dos nossos jovens, muita gente com menos de 25 anos de idade. É difícil saber o número exato, mas não ficaria surpreso se metade das pessoas que crescem nessa família mundial se afastam por um motivo ou por outro. E mesmo que não sejam tantos, os números ainda são altos, muito altos.

Sempre acreditei que o amanhã está nas mãos dos jovens, e essa realidade deveria se refletir na igreja hoje. Essa convicção não mudou durante minhas conversas no Let’s Talk. Ao contrário, se tornou mais forte e definida. Esses diálogos acrescentaram um senso de urgência: O que está nos impedindo? Precisamos dar aos jovens espaço e oportunidade para crescer.

Minha mensagem para a igreja é para que confie nos jovens, converse com eles, ouça o que eles têm a dizer, mostre que confia neles, dando-lhes oportunidades e responsabilidades. Será que eles vão fazer tudo certo em 100 por cento do tempo? Não, mas ninguém faria.

Confiem neles, e eles ainda estarão aqui amanhã e depois de amanhã.

O pastor Jan Paulsen foi presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia entre 1999 e 2010. Ele possui doutorado em teologia pela Universidade de Tübingen, Alemanha. Retirado de Adventist World, outubro de 2008, p. 8-10; reimpresso em Jan Paulsen, Where Are We Going? (Nampa, ID: Pacific Press, 2011), p. 43-46.

O Deus acessível

Publicado: 10/04/2013 em Comunidade, Missão
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Quero lhe apresentar meu amigo João. João acredita que Deus existe. Ele só não acha que conhecer a Deus seja tão complicado quanto lhe disseram. Ele ouviu que a “igreja” é o lugar no qual podemos encontrar Deus. Mas João não está muito interessado em ir à igreja. Lá você tem que ficar parado. Cantar. Ouvir um sermão. Vestir-se bem. Tem que se comportar de determinada maneira. Você não tem a chance de interagir, fazer perguntas ou contribuir com suas próprias ideias. Você não pode ser você mesmo.

Mas pense comigo. Jesus foi a manifestação visível do Deus invisível. Ele era o Deus acessível. Jesus não se escondeu em um edifício, atrás de um diploma ou dentro de um ritual. Ele veio para onde estávamos. Viveu uma vida humana. Interagiu com todo tipo de pessoa, de todas as origens. Ele se encontrava com as pessoas face a face. Ele as envolvia em diálogos pessoais. Claro, às vezes Ele pregou para grandes multidões, mas esta não era a sua principal estratégia.

Em Jesus, Deus se fez completamente acessível. Ele rasgou a cortina do templo. Ele se fez sacrifício para acabar com todos os sacrifícios. Removeu todos os obstáculos entre si e a humanidade.

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Seria impossível ser mais acessível do que isso.

Será que estamos apenas levando o evangelho a pessoas que gostam de cantar hinos e de ouvir sermões? Não podemos tornar mais fácil para as pessoas conhecerem a Deus – esse Deus profundamente relacional – em nossas igrejas? Talvez pudéssemos começar a ter encontros mais pessoais. Permitir a interação e o diálogo. Incentivar as pessoas a fazer perguntas, contribuir com suas ideias e ouvir um ao outro. Deixar as pessoas serem elas mesmas.

Isso pode não se parecer muito com a ideia comum de “igreja”, mas assim talvez João (e muitos outros) pudesse finalmente encontrar o Deus acessível.

Kathleen Ward, Church in a Circle.

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Os exemplos bíblicos, bem como as realidades da pós-modernidade, mostram que devemos nos mover de uma missão centralizada na igreja para uma igreja centralizada na missão. A igreja não é o alvo da missão, mas o instrumento por meio do qual a missão pode ser cumprida. – Jon Paulien, Everlasting Gospel, Ever-changing World: Introducing Jesus to a Skeptical Generation (Boise, ID: Pacific Press, 2008), p. 126.

Caju

Publicado: 07/04/2013 em Comunidade, Missão

A partir de hoje, vou postar sobre projetos inovadores desenvolvidos por jovens adventistas no Brasil. São grupos que buscam revitalizar a espiritualidade da igreja e cumprir a missão cristã na sociedade pós-moderna. Espero que sejam uma inspiração para você!

CAJU

O primeiro projeto que vamos conhecer é a Comunidade Adventista de Jovens Universitários (Caju). Ela começou em maio de 2010, no bairro do Butantã, em São Paulo, e é apoiada pela Associação Paulistana da IASD. Hoje, está presente em outros lugares.

Missão

O Caju existe para quebrar preconceitos sobre religião, criando um ambiente agradável em que as pessoas do meio universitário possam conversar sobre Deus e com Deus, fazer amigos, praticar o voluntariado e crescer juntos.

Descrição

Nosso sonho é ser uma comunidade autêntica em seus laços de amizade, no relacionamento com Deus e no amor ao servir.

Como?

Valorizando:

  • A dependência do homem em relação a Deus.
  • A individualidade das pessoas e a relação de interdependência entre elas.
  • O estudo honesto, curioso e profundo da Bíblia.
  • A coerência entre o que se fala e o que se faz.
  • A criatividade nas formas de expressão.
  • O uso sustentável dos recursos naturais.
  • Um estilo de vida equilibrado.
  • A busca pela excelência.

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Público-alvo

Nosso próximo é o amigo de cursinho, da faculdade, do trabalho. Entretanto, à medida que atingimos jovens de fora da igreja, também envolvemos jovens da igreja, muitos deles desmotivados ou desmobilizados.

  • Jovens da igreja – procuram explicações lógicas para fundamentar sua fé, querem ser aceitos nos grupos sociais em que participam (muitas vezes em oposição a um testemunho fiel) e querem o Evangelho mais aplicado a questões específicas de sua realidade (sua rotina, suas tentações, seus dramas). São muitos os que querem trabalhar para Deus, mas nem sempre encontram espaço (especialmente em igrejas grandes) ou infraestrutura (apoio de grupos de trabalho organizados, mobilização, material voltado para o público etc.).
  • Jovens de fora da igreja – querem se relacionar com pessoas capazes de se comunicar com eles, querem fazer a diferença no mundo (seja pelos negócios, pela política, por serviços sociais ou por atuação profissional), são curiosos, dão credibilidade a métodos científicos, valorizam as relações sociais e não querem ser doutrinados numa relação vertical. Além disso, a maioria vê incoerência entre o discurso e a prática dos cristãos em geral, especialmente no que se refere à intolerância e ao moralismo.

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Características do Caju

  • Igreja-comunidade – desejamos permanecer num tamanho tal que as características de grupo permaneçam. Queremos que os visitantes se sintam notados e que todos os membros encontrem espaço para participar nas atividades do Caju. Para tanto, assim que atingirmos 60 membros, daremos início a procedimentos para criação de outra unidade do projeto, e assim sucessivamente.
  • Informalidade – nossa liturgia é simples e há forte estímulo à participação e ao debate. Tomamos cuidado, entretanto, para que o excesso de informalidade não leve à irreverência. “Mas tudo deve ser feito com decência e ordem” (1 Coríntios 14:40).
  • Linguagem e decoração adaptadas – tanto na comunicação falada como na organização do espaço, desejamos proporcionar ao público-alvo um ambiente aconchegante, confortável e familiar. “Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns” (1 Coríntios 9:23).

Esta é a estrutura do Caju:

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Mais informações:

Facebook: /cajunoface

Twitter: @projetocaju

Apresentação em Prezi.

Texto completo do planejamento: Caju – projeto.

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Permita-me falar sobre o que considero uma compreensão equivocada muitas vezes presente no pensamento adventista e evangélico. Existe grande preocupação e temor em relação ao ecumenismo, e com razão. O que geralmente os evangélicos chamam de ecumenismo é um processo de unificação religiosa com propósitos políticos. Quando religião e política se misturam, acontecem coisas ruins, especialmente aos crentes fiéis que alcançaram uma espiritualidade mais profunda e rejeitaram a pauta política de muitas instituições religiosas.

Mas existe outro tipo de “ecumenismo”, que consiste no chamado de Deus a muitos indivíduos de cada instituição religiosa do globo (Ap 18:4). Entre católicos, muçulmanos, hindus, judeus, budistas e todos os demais grupos, há muitas pessoas que estão buscando a verdade e vivem um relacionamento com Deus. Por meio do Espírito Santo, Deus está presente em cada lugar antes mesmo que os missionários cheguem lá. Tenho encontrado a fé genuína em muitos lugares que jamais imaginei. […]

Corremos o risco de nos preocupar tanto com os riscos do ecumenismo que nos afastemos dos vizinhos, amigos e familiares que pensam e vivem de maneira diferente. O remanescente de Deus do tempo do fim será formado por pessoas de todas as nações, tribos, línguas, povos e, sim, religiões (Ap 14:6; 18:1-4). Eu temo que o pensamento de algumas pessoas nos leve a ver “demônios por trás de cada arbusto” e inspire em nós desconfiança em relação aos outros, de modo que nos afastemos deles. Deus, em vez disso, está tentando reunir as pessoas.

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No pensamento de muitos adventistas (e evangélicos), existe a crença de que nossa religião possui a verdade e os outros estão perdidos. No fim dos tempos, as pessoas abandonarão sua religião falha e se juntarão a nós, formando o remanescente do tempo do fim (ou algo equivalente). Os que apresentam esse raciocínio não percebem que todas as instituições religiosas são falhas, inclusive a nossa. Todas as instituições religiosas são tentativas humanas de testemunhar da atuação de Deus no mundo. Isso é muito bom; devemos apreciar as ações que Deus realiza em nosso meio e falar sobre elas ao mundo. Mas, com o passar do tempo, as instituições religiosas se tornam cada vez mais focadas na autopreservação e menos focadas na missão original. É por isso que reformas espirituais sempre são necessárias em cada fé.

No fim dos tempos, todas as instituições religiosas estarão divididas entre os que desejam preservar a “bolha” humana e os que mantiveram ou recapturaram o espírito e a missão original da fé. O remanescente fiel de cada religião mostrará ter mais em comum uns com os outros do que com os parceiros de sua própria religião. […]

Estas minhas reflexões podem parecer confusas e menos satisfatórias do que uma explicação do tipo “preto no branco”. Mas geralmente a verdade é uma tensão entre dois polos (como a natureza divina e humana de Cristo, ou o papel da fé e das obras na experiência cristã). Não é fácil encontrar um equilíbrio entre o precipício do ecumenismo e o precipício do exclusivismo. O nosso desafio é estar abertos às pessoas e aceitá-las ao mesmo tempo em que discernimos a verdade e o erro.

Jon Paulien, Ph.D., é diretor da Faculdade de Teologia da Universidade de Loma Linda (EUA). Retirado de “Final Reflections on the Spiritual Formation Debate”.