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O evangelho é a superação da religião. O cristianismo é uma religião. O evangelho é, portanto, a superação do cristianismo. O silogismo proposto carece de esclarecimentos. Não pode ser compreendido sem uma adequada noção dos conceitos de evangelho e religião.

O sociólogo venezuelano Otto Maduro, em seu livro Religião e Luta de Classes, define religião como “conjunto de discursos e práticas, referente a seres anteriores ou superiores ao ambiente natural e social, em relação aos quais os fiéis desenvolvem uma relação de dependência e obrigação”.

A definição de Otto Maduro permite identificar dois importantes aspectos do fenômeno religioso: seus fundamentos e sua lógica. Quanto aos fundamentos, a expressão “conjunto de discursos e práticas” aponta para as bases da religião: discursos, ou dogmas – corpo doutrinário; rito, ou práticas litúrgicas; e tabu, ou códigos morais. Considerados esses fundamentos, o evangelho não pode ser classificado como religião.

Embora tenha suas doutrinas e afirmações dogmáticas, a essência do evangelho é o relacionamento com uma pessoa – Jesus Cristo –, e não com um “conjunto de crenças” racional e cartesianamente organizado: “Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). Em relação aos ritos e práticas litúrgicas, sabemos que o evangelho extrapola absolutamente o cerimonialismo religioso e torna obsoleto o debate a respeito de onde e como adorar a Deus, pois “Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24). A adoração legítima e autêntica é a consagração da vida como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1), em detrimento do que se faz nos templos, até porque “Deus não habita em templos feitos por mãos humanas” (At 7.48), tendo como morada (Ef 2.20-22) uma casa espiritual construída com pedras vivas (1Pe 2.5).

Finalmente, o evangelho, cujo novo mandamento é amar com o amor do Cristo (Jo 13.34), jamais poderá se classificar como tabu, ou régua reguladora de comportamento moral, pois “no amor não há Lei” (Gl 5.22-23), o que estabelece a proposta cristã como uma nova consciência, baseada na mente (1Co 2.16) e na atitude do Cristo (Fp 2.5-11), que extrapolam qualquer enquadramento moral ou legal.

Considerando as categorias das ciências da religião que encaixam o fenômeno religioso na moldura dos dogmas, ritos e tabus, é surpreendente que o evangelho seja considerado religião. O evangelho é a superação da religião. Não é adesão a dogmas, mas relação mística com o Deus revelado em Jesus de Nazaré; não é celebrado em ritos, mas na dinâmica do Espírito que faz da vida toda uma festa para a glória de Deus; não se restringe à observação de regras comportamentais, mas se estabelece a partir de uma profunda transformação do ser humano, que é arrancado de si mesmo na direção de seu próximo em amor.

A definição de Otto Maduro permite também perceber a lógica inerente ao fenômeno religioso: a “relação de obrigações e benefícios” com os “seres superiores”. A religião se sustenta na lógica da justiça retributiva: o fiel cumpre suas obrigações e recebe a bênção; falha no cumprimento do que lhe compete no contrato com a divindade e em troca recebe o castigo e a maldição. A impossibilidade humana de atingir quaisquer que sejam os padrões definidos pelos deuses, ou mesmo Deus, faz surgir necessariamente o sistema sacrificial. Por definição, o divino está na categoria da perfeição, enquanto o humano, da finitude e da imperfectibilidade moral. Para escapar dos castigos e maldições, a religião oferece os sacrifícios compensatórios, necessários para afastar a ira dos deuses e conquistar seus favores.

O evangelho é a superação das relações de mérito (justiça retributiva) e dos sistemas sacrificiais. Jesus é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), e inaugura uma nova dimensão de relação entre Deus e os homens, não mais baseada no mérito, mas na graça, a elegante opção autodeterminada de Deus de abençoar “bons e maus, justos e injustos”, pois “Deus é amor” (1Jo 4.8). Aquele que se apropria do evangelho sabe que “Aquele que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós”, também “nos dará juntamente com ele, pela graça, todas as coisas” (Rm 8.32), e desfruta a liberdade e a paz com Deus e a paz de Deus (Rm 5.1; 8.1), pois “o amor lança fora todo o medo” (1Jo 4.18).

À sombra da cruz do Calvário, onde o escandaloso amor de Deus é revelado (Jo 3.16; 1Co 1.23), é surpreendente que o evangelho seja encaixotado nas categorias da religião, que tem como fundamento as “relações de obrigações e benefícios”, e sobrevive de enclausurar corações e consciências nos limites estreitos do medo e da culpa.

É urgente a melhor compreensão dos termos que estabelecem a distinção entre o evangelho de Jesus Cristo e o cristianismo compreendido nos termos das ciências da religião. O cristianismo, como sistema religioso organizado e institucionalizado, é culpado do pecado de quebra do terceiro mandamento. O cristianismo, em qualquer período da história e contexto sociocultural, se assemelha muito mais a todos os demais fenômenos religiosos que ao evangelho que pretendeu superar. É uma pena que os cristãos estejam, ainda hoje, exageradamente apegados às discussões e aos debates dogmáticos, aprisionados a cerimoniais ritualísticos templocêntricos e clericais, quixotesca e desnecessariamente ocupados na tentativa de subjugar e controlar moralmente o comportamento social, e tristemente, escravizados pelos sistemas sacrificiais e meritórios, que não fazem mais do que multiplicar as fileiras dos “decepcionados com Deus”.

Chegou o tempo quando homens e mulheres que serão tomados por loucos devem, em plena manhã, acender uma lanterna, correr aos templos cristãos e gritar incessantemente: “Onde estão aqueles que não se envergonham do evangelho?”.

Ed René Kivitz, mestre em Ciências da Religião, é pastor da Igreja Batista de Água Branca, São Paulo. Possui um blog e desenvolveu a série Talmidim, formada por vídeos curtos com reflexões bíblicas. Retirado de Ultimato, janeiro-fevereiro de 2013, p. 50-51.

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Quando falamos em “missão”, geralmente pensamos em pessoas que moram em lugares distantes, cuja língua e cultura são radicalmente diferentes da nossa. […] Mas a maioria dos cristãos ocidentais acharia mais fácil compartilhar sua fé em Fiji, na Indonésia ou em Zimbábue do que em Nova York, Sydney ou Londres [ou São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre]. Portanto, é tempo de pensar seriamente sobre a missão no mundo ocidental. […]

Hoje, os adventistas estão empenhados como nunca antes no evangelismo público. Na maioria das igrejas, acontecem evangelismo por satélite, seminários proféticos e vários programas usados como pontos de contato (cursos sobre como deixar de fumar, saúde, relacionamento familiar). Pessoas continuam a ser alcançadas com a mensagem do evangelho. Existem testemunhos notáveis de conversão.

Mas precisamos ser honestos com nós mesmos. Uma típica igreja adventista não está transformando sua comunidade local, e muito menos o mundo, através de suas atividades. Não estamos afetando significativamente o coração da cultura ocidental. […]

Muitos preferem deixar a audiência [secular e pós-moderna] fora de seu alcance de consideração. Pensam que não devemos ir ao encontro das pessoas seculares nos próprios termos delas. Dizem o seguinte: “A verdade é a verdade, e ela não deve ser diluída para agradar aqueles que não seguem a Deus. Nosso trabalho é apresentar a mensagem como a conhecemos e amamos, e, se os outros não gostam dela, é problema deles”. […]

Deus vai ao encontro

Contudo, a Bíblia é clara sobre a importância de se dar cuidadosa atenção à cultura da audiência. “As lições deviam ser dadas à humanidade na linguagem da própria humanidade” (Ellen White, O desejado de todas as nações, p. 34). Quanto mais você se familiariza com a Bíblia, mais claro se torna que cada parte da Palavra de Deus foi dada no tempo, local, idioma e cultura de seres humanos específicos.

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Paulo, com seu título de “Ph.D.”, expressa a revelação de Deus de maneira diferente do pescador Pedro. João escreve num grego simples, claro, quase infantil. Por outro lado, o autor de Hebreus escreve num grego complexo e literário. Em Mateus, você vê alguém que compreende a mentalidade judaica e busca alcançá-la. Marcos, por outro lado, alcança a mentalidade gentílica. […]

A linguagem do Novo Testamento não era o grego erudito de Platão e Aristóteles, não era o grego das leis e dos discursos. Era a linguagem do dia a dia! Era a linguagem que as pessoas falavam nas ruas. O Novo Testamento não foi escrito numa linguagem celestial, nem na linguagem da elite cultural, mas na linguagem do dia a dia de pessoas do dia a dia. No Novo Testamento, Deus saiu de Seu caminho para ir ao encontro das pessoas onde elas estavam!

Ellen White afirma:

As Escrituras foram dadas aos seres humanos, não em uma cadeia contínua de ininterruptas declarações, mas parte por parte através de sucessivas gerações, à medida que Deus, em Sua providência, via oportunidade apropriada para impressionar as pessoas nos vários tempos e diversos lugares. […]

A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira de pensar e exprimir-se de Deus. Esta é da humanidade. Deus, como escritor, não Se acha representado. […]

O Senhor deu Sua Palavra justamente pela maneira que queria que ela viesse. Deu-a por meio de diferentes escritores, tendo cada um sua própria individualidade, embora repetindo a mesma história. […] Eles não dizem as coisas exatamente no mesmo estilo. Cada um tem uma experiência sua, própria, e essa diversidade amplia e aprofunda o conhecimento que vem satisfazer as necessidades das variadas mentes (Mensagens escolhidas, v. 1, p. 19, 21-22, grifo nosso).

Tudo para com todos

É esse princípio que motivou Paulo em suas atividades missionárias. A mais clara reflexão de Paulo sobre o assunto, 1 Coríntios 9:19-23, é uma ordem divina para se desenvolver o ministério com pessoas seculares. Paulo diz que alcançar pessoas que são diferentes de nós requer um sacrifício considerável. Se nós temos pouco sucesso em compartilhar o evangelho com pessoas secularizadas, é porque não escolhemos fazer esse sacrifício.

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Embora seja livre de todos, fiz-me escravo de todos, para ganhar o maior número possível de pessoas. Tornei-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da Lei, tornei-me como se estivesse sujeito à Lei (embora eu mesmo não esteja debaixo da Lei), a fim de ganhar os que estão debaixo da Lei. Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (embora não esteja livre da lei de Deus, e sim sob a lei de Cristo), a fim de ganhar os que não têm a Lei. Para com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns. Faço tudo isso por causa do evangelho, para ser co-participante dele (1Co 9:19-23).

Essa é uma ordem para alcançarmos pessoas que são “diferentes” de nós. É uma ordem para aprendermos a falar às pessoas em uma linguagem que faça sentido a elas. […]

Deus nos convida a seguirmos Seu exemplo e irmos ao encontro das pessoas onde elas estão.

Jon Paulien, Ph.D., é diretor da Faculdade de Teologia da Universidade de Loma Linda (EUA). Retirado de Everlasting Gospel, Ever-changing World: Introducing Jesus to a Skeptical Generation (Boise, ID: Pacific Press, 2008), p. 13-18.

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Olho para a família da igreja, especialmente para os que têm menos de 35 anos, e que estão tomando decisões muito importantes para a vida. Eles não refletem mais simplesmente as atitudes e crenças de seus pais, professores ou pastores. Estão testando esses valores por si mesmos, decidindo se irão mantê-los, modificá-los ou trocá-los por algo totalmente diferente.

Então, eu penso nos muitos jovens que estão saindo da igreja, e isso me angustia profundamente. É difícil saber o número exato, mas não ficaria surpreso se metade das pessoas que crescem nessa família mundial se afastam por um motivo ou por outro. E mesmo que não sejam tantos, os números ainda são altos, muito altos.

Por que tantos deixam a igreja? Arrisco-me a simplificar um assunto tão relevante, mas quero apresentar algumas reflexões que tomaram forma em minha mente ao longo dos anos, e que, recentemente, ganharam um crescente senso de urgência para mim.

Adolescentes 

Há muitos anos, aconteceu algo com um jovem que era muito próximo de mim. Ele estava lutando contra várias questões ao mesmo tempo, e não era fácil para ele se levantar e ir para a igreja todos os sábados. Certo sábado de manhã, ele chegou à porta da igreja um pouco atrasado, usando calça jeans. O primeiro ancião, quando o viu, disse: “Você não está vestido de maneira apropriada. Vá para casa e troque de roupa”. Ele foi para casa e não voltou mais.

Ali começou a sua longa jornada pelo deserto espiritual, onde ele passou muito, muito tempo. Mais tarde, ele saiu daquele deserto, porém mais por amor aos seus pais e pela certeza do imenso amor que tinham por ele.

Esse foi incidente o único motivo para ele deixar a igreja? Não. Mas, para ele, foi o momento exato em que a igreja lhe disse: “Você realmente não se encaixa entre as pessoas que frequentam este local. Vá para casa e se adéque aos nossos padrões”.

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Muitos adolescentes decidem deixar a igreja por se sentirem “marcados”. Eles se sentem indignos; sentem-se inúteis; não se sentem à vontade dentro da igreja para debater questões sobre estilo de vida e comportamento que eles e seus amigos estão enfrentando. Poderíamos fazer uma longa lista dessas questões: atividades sociais, música e entretenimento, relacionamentos e sexualidade, a necessidade de expressar um crescente senso de individualidade e independência. Os jovens falam sobre essas coisas entre si, com o sentimento de que serão condenados se alguém os ouvir.

Como podemos compreender os adolescentes de maneira mais adequada?

Faça-o de modo pessoa Pense na sua própria família, em seus filhos. É difícil seu filho ou sua filha “merecerem” algo de você? Claro que não! Eles são sangue do seu sangue, carne da sua carne.

Se tomarmos tempo para considerar cada jovem de nossa congregação como nossos próprios filhos e filhas, haveria uma incrível mudança de visão. Somente quando o adolescente sente na comunidade da igreja o mesmo tipo de calor que sente (ou, pelo menos, deveria sentir) na intimidade da sua família, poderemos encontrar soluções.

Isso precisa ser algo pessoal. Essa não é uma tarefa que deve ser delegada ao pastor de jovens, aos desbravadores ou à Escola Sabatina. É a minha atitude para com os jovens da minha congregação que faz a diferença. Como eles reagem às minhas palavras e atitude para com eles?

Contextualize  Os adolescentes falam e fazem “loucuras”; simplesmente fazem. São adolescentes, e falar e fazer “loucuras” está dentro da normalidade deles. É natural a eles testar coisas novas, fazer escolhas, perturbar e abalar a rotina. Pode ser pela pressão do grupo, por um ato de rebeldia ou simplesmente pelo fato de que cresceram em um mundo (o “mundo adventista”) e querem experimentar, vivenciar um “outro mundo”. É muito simples: os valores dos pais não são transmitidos geneticamente. O adolescente está testando e questionando – esse é um processo natural a essa etapa da jornada. Portanto, precisamos estender a tolerância e a paciência e estar dispostos a ampliar a nossa visão.

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Lembre-se: você já passou por isso e também cometeu erros. Muitos erros!  Você consegue se lembrar de quando era adolescente? Às vezes, você não estava satisfeito consigo mesmo. Você tinha consciência de tudo o que acontecia: percebia cada espinha no seu rosto, cada falha no seu modo de agir e sentia que era extremamente vulnerável à opinião dos outros.

Uma palavra impensada falada por um membro mais velho da congregação pode ter enormes consequências para um jovem cuja autoimagem é facilmente danificada. Do mesmo modo, algumas palavras de incentivo podem ter um impacto positivo que não pode ser medido.

Jovens e universitários

Há os que sobrevivem à adolescência e ainda estão nos bancos da igreja, pelo menos na maioria dos sábados. Estão terminando os estudos, embarcando na carreira profissional e formando suas famílias. O que faz a diferença entre os que criam raízes fortes em uma comunidade de crentes e os que se movem vagarosamente em direção à porta?

Relevância  Pense em um grupo de jovens amigos jovens, que ocasionalmente se reúnem para conversar. Eles falam sobre vários assuntos do interesse deles. E, às vezes, conversam sobre a igreja. Para eles, perguntas como estas são muito importantes: “Quão relevante é o adventismo? Será que ele tem algo importante a dizer sobre questões da vida cotidiana, justiça social, pobreza e direitos humanos, meio ambiente, ética, economia? Na prática, que diferença realmente faz o rótulo de ‘adventista’?”.

Hands on a globe

Para muitos jovens, ver como essas perguntas são respondidas pela igreja pode determinar se eles ficam ou saem. Estão desencantados com a religião centralizada apenas no futuro e que negligencia completamente o presente. Não que eles tenham deixado de crer no que a igreja ensina, mas perderam a fé na habilidade dela de falar sobre o significado da vida do dia a dia. Estão frustrados ao perceber a falta de vontade da igreja em dar o mesmo peso moral e teológico aos assuntos que mais afetam a sociedade.

Comunidade  Ainda mais importante é que, para muitos jovens, a igreja não proporciona os laços comunitários apropriados à sua expectativa. Um jovem me escreveu recentemente: “Quando alguém está passando por uma dificuldade, será que pensa imediatamente em procurar a igreja porque sabe que será amado e compreendido? Ou a igreja é o último lugar para alguém se abrir e pedir ajuda? Geralmente, é a última opção”.

Para jovens que vivem num mundo pós-moderno, estar “certo” vai levá-lo somente até determinado ponto. Você pode falar a verdade com eloquência, pode estar correto em cada detalhe, pode citar capítulos e versículos, e, mesmo assim, eles vão sair da igreja se não sentirem uma profunda e calorosa aceitação.

Propósito e confiança  Os jovens também se afastam da igreja porque estão cheios de ideias, opiniões e energia, mas não encontram lugar para compartilhá-las dentro da igreja. Não que creiam que a igreja não seja importante para eles; ao contrário, creem que eles não são importantes para a igreja! Assim, podem permanecer dentro por um tempo, por uma questão familiar ou social, mas, no fundo, não sentem mais que pertencem a essa comunidade.

Chamado à ação

Não tenho palavras para expressar a profundidade da minha convicção de que devemos dar aos jovens um lugar importante na igreja. Isso não deve ser apenas “mantê-los ocupados”. Devemos dar-lhes um alto nível de confiança, incluindo-os nas decisões importantes da igreja, e procurar envolvê-los de um modo que diga: “Queremos ouvir a voz de vocês”.

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Tanto para os adolescentes como para os jovens, “confiança” é o pivô sobre o qual giram muitas dessas questões. Não o tipo de confiança que diz: “Vamos lhe dar tal responsabilidade e, após um tempo, vamos lhe avaliar”. Ao contrário, falo de um tipo de confiança que liberta e capacita os jovens a serem participantes no planejamento do culto e do testemunho de sua congregação; uma confiança que reconhece que alguém não precisa ter 40, 50 ou 60 anos de idade para ter um fervoroso desejo de servir a Deus; uma confiança que reconhece que o seu amor pela igreja é tão profundo quanto o meu; e que eles também escolheram esse lugar como seu lar espiritual.

Será que a atitude deles em relação a essas coisas, às vezes, pode ser diferente da minha expectativa? Sim, talvez. Corremos algum risco? Pode ser. Porém, o risco de não confiar em nossos jovens é muito maior. Pois, se não confiarmos neles, confirmarmos de verdade, eles simplesmente irão embora.

O pastor Jan Paulsen foi presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia entre 1999 e 2010. Ele possui doutorado em teologia pela Universidade de Tübingen, Alemanha. Retirado de Adventist World, outubro de 2009, p. 8-10 (adaptado).

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Tenho visto essa categoria aumentar a cada dia, e tenho que confessar que preciso lutar contra mim mesmo para não me tornar um deles!

Os profetas sempre tiveram um papel fundamental no judaísmo e, no cristianismo, são como torres de vigias. Quase nunca se encaixam nos padrões dos “sacerdotes” e estão lá para falar na cara os erros dos falsos profetas, dos sacerdotes, dos intérpretes, os erros do povo de Deus.

Mas existe uma grande diferença entre um profeta e um cara que só gosta de criticar. O profeta é um cara que não se conforma com o erro, mas que ama muito quem está criticando.

Certa vez ouvi a história de uma profetisa que entrou no gabinete pastoral e falou: “Pastor, Deus vai destruir a nossa cidade esta semana por causa dos nossos pecados!”. O pastor se levantou, olhou nos seus olhos e declarou: “Isso que você está profetizando é falso!”. Com os olhos arregalados, ela perguntou por quê. Ele respondeu: “Porque, se você fosse profetisa de Deus e esta mensagem fosse dEle, você falaria isso com lágrimas nos olhos!”.

Não sei se essa história é verdadeira, mas ela ensina algo que é muito verdadeiro: o profeta sente dor em mostrar os erros dos que são da sua casa. Não é prazeroso para ele, mas ele o faz porque Deus mandou e não tem saída. Ele tenta sempre trazer o conserto e a reconciliação.

Com a internet, os que não eram ouvidos ganharam voz, mas com esta oportunidade veio todo tipo de “profeta” e frustrados religiosos.

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Se você varre a casa e joga o lixo fora, você é uma pessoa que está se importando apenas com a casa limpa. Mas, se você leva o lixo até o lixão e fica por lá observando os outros lixos, então você deixou de se importar com a casa e se encantou pelo lixo.

É isso que tenho visto em alguns blogs, vídeos, twitters aqui na internet. Pessoas que já saíram de casa para morar no lixão, onde ficam mexendo nos lixos cristãos para encontrar os mais fedorentos e guardar para sua coleção. Assim, ficam o tempo todo mostrando aberrações “cristãs” e se divertindo com aquilo com que Deus Se entristece.

Apenas urubus gostam de ficar o tempo todo em lixões ao redor das carniças. Este tipo de material não traz vida, não traz mudança social ou religiosa, mas sim entretenimento bizarro, e isso os profetas nunca fizeram.

Tenho que confessar que sou por criação um cara muito crítico, mas não quero transformar meu blog, meu Twitter, minhas peças ou pregações em um lixão em que não me importe mais com a limpeza da casa, e sim em sobreviver da carcaça de quem já esta morto. Deus me ajude a advertir e aconselhar com amor e a não perder o foco!

Marcos Botelho é pastor de jovens e missionário da missão Jovens da Verdade e da Sepal – Servindo aos Pastores e Líderes. Retirado do blog Vida cristã fora da caixa; publicado no livro Vida cristã fora da caixa (Viçosa, MG: Ultimato, 2013), p. 96-97. O texto acima combina as duas versões e apresenta pequenas adaptações.

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O Senhor não confiou a meus irmãos a obra que me deu para fazer. Alguns têm reclamado que minha maneira de dar reprovação em público leva outros a serem críticos, cortantes e severos. Se esses assumem a responsabilidade que Deus não depôs sobre eles; se desrespeitam as instruções que Ele seguidamente lhes deu através do humilde instrumento de Sua escolha, a fim de torná-los bondosos, pacientes e tolerantes, somente eles responderão pelos resultados. – Ellen White, Testemunhos para a igreja, v. 5, p. 20.

Vamos conversar?

Publicado: 16/04/2013 em Comunidade, Missão
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Let’s Talk – Brasil

Em novembro de 1848, Ellen White teve uma visão que resultou em profundas ações para o desenvolvimento da igreja. Ela algumas vezes é chamada de visão das “torrentes de luz”. Ellen viu que Tiago White deveria publicar
um “pequeno jornal”, que levaria a mensagem do advento ao redor do mundo como torrentes de luz.

O que me impressiona não é apenas a visão propriamente dita, mas a atitude de Ellen White após receber a visão; sua determinação em ver o plano de Deus em ação, apesar dos que diziam ser impraticável, se não impossível. Ela permaneceu firme contra a desaprovação de outros líderes, como José Bates, que pensava que o marido dela, Tiago, fosse mais eficiente como pregador do que como escritor. Ellen também resistiu às dúvidas de Tiago, que pensava nas enormes dificuldades financeiras que envolveriam a impressão e a distribuição de um jornal. Ela insistiu: “Ele deve escrever, escrever, escrever e seguir em frente pela fé” (Vida e ensinos, p. 125-126).

É fácil esquecer que Ellen tinha apenas 21 anos de idade.  

Nosso bem mais valioso 

Em 2003, comecei uma série de diálogos com jovens adventistas ao redor do mundo. Demos à série o nome de Let’s Talk (Vamos conversar). Como resultado dessas mais de 30 conversas, estou convencido de que os jovens também têm uma visão para a sua igreja. Eles são criativos, desejam se envolver e, acima de tudo, estão comprometidos com o Senhor e com Sua missão.

Esses diálogos do Let’s Talk ocorreram na televisão, foram transmitidos ao vivo e pela internet. Através desses diálogos, passei a sentir profunda confiança nos jovens. Sim, em alguns momentos fui cético, mas, depois de conversa após conversa com rapazes e moças entre 15 e 25 anos de idade, estou convencido de que eles amam a igreja. É ali que querem estar. É nela que querem servir ao Senhor. Eles estão prontos. E eles têm muito a contribuir.

Os diálogos foram muito abrangentes, às vezes com preocupações locais, assuntos relativos a um determinado contexto e cultura. Mas houve também uma série de perguntas sobre temas globais, que ouvi em espanhol ou swahili, português ou inglês.

Let’s Talk – Nova York

Eles se importam

1. Procurando um lugar e uma voz – No cerne do que os jovens dizem, geralmente estão estas perguntas: “Por que não nos permitem falar mais?”; “Por que não podemos nos envolver mais na liderança?”. Essas perguntas são exigentes, mas são justas. Eles não estão perguntando: “Por que o Comitê Executivo da Associação Geral não tem mais jovens como membros?”. Eles não perguntam por que não podem ser membros das divisões, uniões ou das comissões das associações. Em vez disso, eles querem ter mais responsabilidades em suas congregações locais.

Por que somos tão relutantes em deixar que participem? Lembre-se dos doze que Cristo escolheu. Lembre-se dos pioneiros da igreja.

Às vezes, nos esquecemos do caminho que trilhamos, dos erros que cometemos. Esquecemos que nós também, no início, caminhamos inseguros e trôpegos. Isso é normal, até que nossos músculos fiquem mais fortes, para caminhar com firmeza e saber onde pisar.

Muitas vezes exageramos o valor da experiência. A experiência é importante, mas a personalidade é mais importante: o modo como lidamos com as pessoas, nossa capacidade de amar e de cuidar da igreja, e como ser responsável. Essas coisas são mais significativas. Se os líderes colocarem o homem certo ou a mulher certa no lugar certo, obterão a experiência de que precisam. Mas se colocarem a pessoa errada numa posição, independente da idade, nunca haverá êxito.

2. Definindo limites – Nesses diálogos, houve muitas perguntas sobre vestuário, joias, entretenimento, música e relacionamentos.

A mente dos jovens pode ser bastante “legalista” no sentido de ver o mundo em linhas distintas e definidas. Muitos procuram definir os limites com segurança e clareza. Alguns jovens querem fórmulas e são persistentes. Muitas vezes não estão satisfeitos “apenas” com princípios; querem respostas específicas. São levados pela necessidade de se definir, de definir os limites ao redor deles: “Onde eu me encaixo em tudo isso?”; “Será que gosto de onde estou?”; “Até compreendo os limites, mas por que eles existem?”; “Em que consiste uma vida de obediência a Deus?”.

Assim como muitos jovens com quem conversei, eu também cresci em um lar adventista. Quando cheguei aos 20 anos de idade, era bem legalista em meu modo de pensar. Era impaciente com aqueles que diziam: “Bem, talvez sim, talvez não”. Esses “talvez” causavam problemas. No entanto, aprendi, por experiência própria, que há situações em que se deve deixar espaço para que as pessoas cresçam, se desenvolvam e descubram a vontade de Deus para elas.

Há confiança aí, mas também uma grande responsabilidade. Por isso, lembro aos jovens: não abusem de sua liberdade; não ajam com leviandade.

Let’s Talk – Oakwood

A escolha da música foi um tema recorrente. Voltamos ao assunto várias vezes porque é uma preocupação legítima para os jovens. Basta observar o papel desempenhado pela música em qualquer culto realizado por jovens. Ela ocupa uma parte tão importante da vida deles que as perguntas eram realmente sérias.

Sei que algumas pessoas, ao ouvir essa conversa, dirão: “Por que ele simplesmente não diz como deve ser essa música, estabelece um limite, bem distinto?”. E posso apenas responder: “Vejam, esses são os nossos filhos; falem com eles. Seus filhos estão à procura de uma legítima identidade na igreja. Ajudem esses jovens a encontrá-la. Não os mandem embora. Ajudem esses rapazes e moças a compreender a confiança e a responsabilidade depositada sobre eles”.

3. Encontrando uma missão –  Os jovens estão preocupados com o fato de que muitos amigos estão saindo da igreja. Essa preocupação foi levantada várias vezes. Geralmente pergunto: “Diga-me, por que eles saíram?”.

A resposta era: “A igreja é muito antiquada”; “Não há tolerância”; “A igreja é muito negativa. Somos criticados sobre nossa aparência e nossas escolhas”.

E eu dizia: “E a amizade? O seu amigo saiu porque perdeu o senso de comunidade? Você era, realmente, amigo dele?”.

Frequentemente, havia silêncio, mas depois vinha a resposta: “Sim, talvez nós também tenhamos falhado com alguns deles”.

Então, eu perguntava: “Você, então, não deveria procurá-los?”.

Os jovens precisam receber uma responsabilidade maior para ministrar por seus companheiros. Esse é um desafio para o qual só eles estão equipados. Esse deve ser um ministério definido, reconhecido na igreja local, assim como a Escola Sabatina, ou o diaconato, ou o ancionato. Vamos dar aos jovens um espaço oficial, um lugar de confiança. Eles irão se apegar a essa responsabilidade, e surgirá algo novo e poderoso.

Let’s Talk – El Salvador

Confiemos neles

Estamos perdendo muitos dos nossos jovens, muita gente com menos de 25 anos de idade. É difícil saber o número exato, mas não ficaria surpreso se metade das pessoas que crescem nessa família mundial se afastam por um motivo ou por outro. E mesmo que não sejam tantos, os números ainda são altos, muito altos.

Sempre acreditei que o amanhã está nas mãos dos jovens, e essa realidade deveria se refletir na igreja hoje. Essa convicção não mudou durante minhas conversas no Let’s Talk. Ao contrário, se tornou mais forte e definida. Esses diálogos acrescentaram um senso de urgência: O que está nos impedindo? Precisamos dar aos jovens espaço e oportunidade para crescer.

Minha mensagem para a igreja é para que confie nos jovens, converse com eles, ouça o que eles têm a dizer, mostre que confia neles, dando-lhes oportunidades e responsabilidades. Será que eles vão fazer tudo certo em 100 por cento do tempo? Não, mas ninguém faria.

Confiem neles, e eles ainda estarão aqui amanhã e depois de amanhã.

O pastor Jan Paulsen foi presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia entre 1999 e 2010. Ele possui doutorado em teologia pela Universidade de Tübingen, Alemanha. Retirado de Adventist World, outubro de 2008, p. 8-10; reimpresso em Jan Paulsen, Where Are We Going? (Nampa, ID: Pacific Press, 2011), p. 43-46.

A tirania do irmão fraco

Publicado: 13/04/2013 em Bíblia, Comunidade

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Uma das maiores ênfases de Paulo é que nós somos livres em Cristo – livres do pecado pela graça, livres da escravidão legalista, e livres para seguir Jesus em crescente maturidade. Mas, embora Paulo defenda com vigor essa liberdade (Gálatas 5:1), em duas passagens ele apresenta uma ressalta: às vezes, precisamos voluntariamente restringir nossa liberdade em favor daqueles que são fracos na fé (Romanos 14; 1 Coríntios 8-10).

Esses textos bíblicos com frequência são usados como obstáculo ao crescimento, especialmente em igrejas locais. Muitas verdades deixam de ser ditas e muitas reformas espirituais deixam de ser realizadas para que o “irmão fraco” não se “escandalize”. Mas seria essa a mensagem que Paulo desejava transmitir?

Precisamos entender que o problema do irmão fraco está nele, na fé dele, porque a fé dele é pequena. Se alguém na igreja favorece essa pessoa, no sentido de deixar de fazer alguma coisa para que ela não seja escandalizada, não é porque ela está certa. É porque ela é fraca. Então, há um reconhecimento de fraqueza toda vez que eu faço um sacrifício por alguém.

Sim, você tem uma preocupação de não escandalizar, mas essa preocupação tem limite. Você precisa cuidar para fazer maturar o membro que é menino, e não permitir que pessoas assim se tornem a maioria, se tornem a cultura e passem a mandar na igreja. Eu não posso permitir que essa pessoa dite as regras da igreja, porque ela não está certa; ela é fraca. Jesus não quer que a Sua igreja seja nivelada por baixo, seja dominada pelo mais fraco.

Para Paulo, o legalista é o mais fraco porque entende que rigor nas normas é igual a força espiritual. Quando alguém pensa que rigor é que é força espiritual, ele menospreza a graça, porque ela não é suficiente mais. A graça não resolve; você tem que ser rigoroso. Ele pensa que satisfaz a Deus com o compromisso que força a ele mesmo a cumprir uma lista sempre crescente de exigências. E a lista nunca acaba. Todo sermão que ele ouve, ele adiciona alguma coisa na lista. Ele fica ouvindo o sermão e pensando assim: “O que eu tenho que aprender a fazer que eu não faço ainda?”.

Aí ele vive 30 anos, e a lista fica enorme. E pior: ele tenta conformar todos os outros com o seu próprio padrão: “Toma a minha lista pra você”. E o que a igreja está fazendo é seguindo a lista dele. Por que a juventude não aguenta mais? Porque a gente rebaixou o cristianismo a isso.

Diego Barreto e José Flores Junior são pastores da Igreja Adventista do Sétimo Dia em São Paulo. Retirado de BibleCast nº 99: “A tirania dos gremlins” (os dois primeiros parágrafos foram acrescentados). Ouça o podcast completo no site Confissões Pastorais

Saiba mais no artigo de Loren Seibold, “The Tyranny of the Weaker Brother”, Ministry, novembro de 2012.