Vamos conversar?

Publicado: 16/04/2013 em Comunidade, Missão
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Let’s Talk – Brasil

Em novembro de 1848, Ellen White teve uma visão que resultou em profundas ações para o desenvolvimento da igreja. Ela algumas vezes é chamada de visão das “torrentes de luz”. Ellen viu que Tiago White deveria publicar
um “pequeno jornal”, que levaria a mensagem do advento ao redor do mundo como torrentes de luz.

O que me impressiona não é apenas a visão propriamente dita, mas a atitude de Ellen White após receber a visão; sua determinação em ver o plano de Deus em ação, apesar dos que diziam ser impraticável, se não impossível. Ela permaneceu firme contra a desaprovação de outros líderes, como José Bates, que pensava que o marido dela, Tiago, fosse mais eficiente como pregador do que como escritor. Ellen também resistiu às dúvidas de Tiago, que pensava nas enormes dificuldades financeiras que envolveriam a impressão e a distribuição de um jornal. Ela insistiu: “Ele deve escrever, escrever, escrever e seguir em frente pela fé” (Vida e ensinos, p. 125-126).

É fácil esquecer que Ellen tinha apenas 21 anos de idade.  

Nosso bem mais valioso 

Em 2003, comecei uma série de diálogos com jovens adventistas ao redor do mundo. Demos à série o nome de Let’s Talk (Vamos conversar). Como resultado dessas mais de 30 conversas, estou convencido de que os jovens também têm uma visão para a sua igreja. Eles são criativos, desejam se envolver e, acima de tudo, estão comprometidos com o Senhor e com Sua missão.

Esses diálogos do Let’s Talk ocorreram na televisão, foram transmitidos ao vivo e pela internet. Através desses diálogos, passei a sentir profunda confiança nos jovens. Sim, em alguns momentos fui cético, mas, depois de conversa após conversa com rapazes e moças entre 15 e 25 anos de idade, estou convencido de que eles amam a igreja. É ali que querem estar. É nela que querem servir ao Senhor. Eles estão prontos. E eles têm muito a contribuir.

Os diálogos foram muito abrangentes, às vezes com preocupações locais, assuntos relativos a um determinado contexto e cultura. Mas houve também uma série de perguntas sobre temas globais, que ouvi em espanhol ou swahili, português ou inglês.

Let’s Talk – Nova York

Eles se importam

1. Procurando um lugar e uma voz – No cerne do que os jovens dizem, geralmente estão estas perguntas: “Por que não nos permitem falar mais?”; “Por que não podemos nos envolver mais na liderança?”. Essas perguntas são exigentes, mas são justas. Eles não estão perguntando: “Por que o Comitê Executivo da Associação Geral não tem mais jovens como membros?”. Eles não perguntam por que não podem ser membros das divisões, uniões ou das comissões das associações. Em vez disso, eles querem ter mais responsabilidades em suas congregações locais.

Por que somos tão relutantes em deixar que participem? Lembre-se dos doze que Cristo escolheu. Lembre-se dos pioneiros da igreja.

Às vezes, nos esquecemos do caminho que trilhamos, dos erros que cometemos. Esquecemos que nós também, no início, caminhamos inseguros e trôpegos. Isso é normal, até que nossos músculos fiquem mais fortes, para caminhar com firmeza e saber onde pisar.

Muitas vezes exageramos o valor da experiência. A experiência é importante, mas a personalidade é mais importante: o modo como lidamos com as pessoas, nossa capacidade de amar e de cuidar da igreja, e como ser responsável. Essas coisas são mais significativas. Se os líderes colocarem o homem certo ou a mulher certa no lugar certo, obterão a experiência de que precisam. Mas se colocarem a pessoa errada numa posição, independente da idade, nunca haverá êxito.

2. Definindo limites – Nesses diálogos, houve muitas perguntas sobre vestuário, joias, entretenimento, música e relacionamentos.

A mente dos jovens pode ser bastante “legalista” no sentido de ver o mundo em linhas distintas e definidas. Muitos procuram definir os limites com segurança e clareza. Alguns jovens querem fórmulas e são persistentes. Muitas vezes não estão satisfeitos “apenas” com princípios; querem respostas específicas. São levados pela necessidade de se definir, de definir os limites ao redor deles: “Onde eu me encaixo em tudo isso?”; “Será que gosto de onde estou?”; “Até compreendo os limites, mas por que eles existem?”; “Em que consiste uma vida de obediência a Deus?”.

Assim como muitos jovens com quem conversei, eu também cresci em um lar adventista. Quando cheguei aos 20 anos de idade, era bem legalista em meu modo de pensar. Era impaciente com aqueles que diziam: “Bem, talvez sim, talvez não”. Esses “talvez” causavam problemas. No entanto, aprendi, por experiência própria, que há situações em que se deve deixar espaço para que as pessoas cresçam, se desenvolvam e descubram a vontade de Deus para elas.

Há confiança aí, mas também uma grande responsabilidade. Por isso, lembro aos jovens: não abusem de sua liberdade; não ajam com leviandade.

Let’s Talk – Oakwood

A escolha da música foi um tema recorrente. Voltamos ao assunto várias vezes porque é uma preocupação legítima para os jovens. Basta observar o papel desempenhado pela música em qualquer culto realizado por jovens. Ela ocupa uma parte tão importante da vida deles que as perguntas eram realmente sérias.

Sei que algumas pessoas, ao ouvir essa conversa, dirão: “Por que ele simplesmente não diz como deve ser essa música, estabelece um limite, bem distinto?”. E posso apenas responder: “Vejam, esses são os nossos filhos; falem com eles. Seus filhos estão à procura de uma legítima identidade na igreja. Ajudem esses jovens a encontrá-la. Não os mandem embora. Ajudem esses rapazes e moças a compreender a confiança e a responsabilidade depositada sobre eles”.

3. Encontrando uma missão –  Os jovens estão preocupados com o fato de que muitos amigos estão saindo da igreja. Essa preocupação foi levantada várias vezes. Geralmente pergunto: “Diga-me, por que eles saíram?”.

A resposta era: “A igreja é muito antiquada”; “Não há tolerância”; “A igreja é muito negativa. Somos criticados sobre nossa aparência e nossas escolhas”.

E eu dizia: “E a amizade? O seu amigo saiu porque perdeu o senso de comunidade? Você era, realmente, amigo dele?”.

Frequentemente, havia silêncio, mas depois vinha a resposta: “Sim, talvez nós também tenhamos falhado com alguns deles”.

Então, eu perguntava: “Você, então, não deveria procurá-los?”.

Os jovens precisam receber uma responsabilidade maior para ministrar por seus companheiros. Esse é um desafio para o qual só eles estão equipados. Esse deve ser um ministério definido, reconhecido na igreja local, assim como a Escola Sabatina, ou o diaconato, ou o ancionato. Vamos dar aos jovens um espaço oficial, um lugar de confiança. Eles irão se apegar a essa responsabilidade, e surgirá algo novo e poderoso.

Let’s Talk – El Salvador

Confiemos neles

Estamos perdendo muitos dos nossos jovens, muita gente com menos de 25 anos de idade. É difícil saber o número exato, mas não ficaria surpreso se metade das pessoas que crescem nessa família mundial se afastam por um motivo ou por outro. E mesmo que não sejam tantos, os números ainda são altos, muito altos.

Sempre acreditei que o amanhã está nas mãos dos jovens, e essa realidade deveria se refletir na igreja hoje. Essa convicção não mudou durante minhas conversas no Let’s Talk. Ao contrário, se tornou mais forte e definida. Esses diálogos acrescentaram um senso de urgência: O que está nos impedindo? Precisamos dar aos jovens espaço e oportunidade para crescer.

Minha mensagem para a igreja é para que confie nos jovens, converse com eles, ouça o que eles têm a dizer, mostre que confia neles, dando-lhes oportunidades e responsabilidades. Será que eles vão fazer tudo certo em 100 por cento do tempo? Não, mas ninguém faria.

Confiem neles, e eles ainda estarão aqui amanhã e depois de amanhã.

O pastor Jan Paulsen foi presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia entre 1999 e 2010. Ele possui doutorado em teologia pela Universidade de Tübingen, Alemanha. Retirado de Adventist World, outubro de 2008, p. 8-10; reimpresso em Jan Paulsen, Where Are We Going? (Nampa, ID: Pacific Press, 2011), p. 43-46.

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