Arquivo de março, 2013

Na década de 1890, A. T. Jones e E. J. Waggoner ajudaram os adventistas a compreender melhor o evangelho da graça. Isso produziu grandes reavivamentos e fortaleceu a igreja a prosseguir em sua missão. Como podemos ter uma experiência semelhante em nossos dias?

A reflexão a seguir tem por base principalmente o último capítulo do livro de George R. Knight, A mensagem de 1888 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003), p. 187-203.

1. Precisamos resgatar a centralidade da mensagem de Apocalipse 14

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A mensagem para o nosso tempo foi profetizada na figura dos três anjos de Apocalipse 14 (versículos 6-12). O povo de Deus é descrito nestas palavras: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Apocalipse 14:12, ARA). Muitos acreditam que a lei é oposta ao evangelho, mas a profecia afirma devemos aceitar ambos: os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.

O que os adventistas inicialmente não compreenderam tão bem foi a “fé em Jesus”. Essa parte do texto bíblico se tornou o ponto focal da assembleia de 1888. Nesse importante evento, Ellen White, A. T. Jones e E. J. Waggoner enfatizaram que o centro da mensagem de Apocalipse 14 é a fé no grande sacrifício de Jesus realizado na cruz do Calvário. Conforme Ellen White e Waggoner declararam repetidas vezes, essa compreensão não era nenhuma verdade nova sobre a salvação pela graça, mas a mesma verdade pregada por Jesus, Paulo e os reformadores do século 16.

A nossa missão essencial não se modificou desde 1888. Devemos apresentar corretamente a relação entre a lei e o evangelho. Ellen White afirmou:

Ainda há muita luz que brilhará da lei de Deus e do evangelho da justificação. Essa mensagem, compreendida em seu verdadeiro caráter e proclamada no Espírito, iluminará a Terra com sua glória [Apocalipse 18:1] (Este dia com Deus, p. 329).

2. Jesus e Sua graça salvadora devem estar no centro de nossas crenças

A mensagem para este tempo é muito ampla: envolve um Salvador vivo e atual, e Sua obra inclui o que Ele fez (na cruz), está fazendo (no santuário celestial) e fará (na segunda vinda). Essa mensagem é, por definição, totalmente cristocêntrica.

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Por essa razão, Ellen White escreveu:

De todos os professos cristãos, os adventistas do sétimo dia devem ser os primeiros a exaltar Cristo perante o mundo. A proclamação da terceira mensagem angélica pede a apresentação da verdade do sábado. Essa verdade, juntamente com outras incluídas na mensagem, tem de ser proclamada; mas o grande centro de atração, Cristo Jesus, não deve ser deixado à parte (Obreiros evangélicos, p. 156).

Cristo e Sua obra redentora são o centro da doutrina bíblica e da mensagem adventista. O teólogo Alberto R. Timm explica:

Falando a respeito da posição de Cristo dentro do amplo espectro da mensagem adventista, [Ellen] White afirmou que “a verdade para este tempo é ampla em seus contornos, de vasto alcance, abrangendo muitas doutrinas; estas, porém, não são unidades destacadas, de pouca significação; são unidas por áureos fios, formando um todo completo, tendo Cristo como o centro vivo” (Mensagens escolhidas, v. 2, p. 87) (Ministério, março-abril de 2001, p. 16).

O autor continua:

A respeito da obra expiatória de Cristo, a mesma autora assevera que “Jesus Cristo, e Este crucificado” é o “grande interesse central” (Testemunhos para ministros, p. 331). A cruz do Calvário é considerada “o grande centro” (Seventh-day Adventist Bible Commentary, v. 4, p. 1.173), e a expiação [realizada na cruz], “a grande essência, a verdade central” (Evangelismo, p. 223). Ela explica que “a cruz deve ocupar o lugar central por ser o meio da expiação da humanidade e pela influência que ela exerce em todas as partes do governo divino” (Testemunhos para a igreja, v. 6, p. 236) (ibid.).

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O cerne da mensagem de 1888 foi a exaltação de Jesus e da plena salvação nEle, que também é a essência da mensagem de Apocalipse 14. Ellen White declarou:

Vários me escreveram, indagando se a mensagem da justificação pela fé é a mensagem do terceiro anjo, e tenho respondido: “É verdadeiramente a mensagem do terceiro anjo” (Mensagens escolhidas, v. 1, p 372).

A mensagem da justiça de Cristo soará de uma à outra extremidade da Terra, a fim de preparar o caminho ao Senhor. Essa é a glória de Deus com que será encerrada a mensagem do terceiro anjo (Testemunhos para a igreja, v. 6, p. 19).

Um interesse predominará, um assunto absorverá todos os outros — Cristo, justiça nossa (Filhos e filhas de Deus, p. 259).

Não devemos imaginar que um entendimento equivocado sobre a salvação estivesse restrito aos primeiros cristãos (veja, por exemplo, Romanos e Gálatas) e aos primeiros adventistas. Pesquisas recentes mostram que estamos tão confusos quanto eles (veja aqui e aqui). Portanto, temos a mesma necessidade.

3. Precisamos passar do nível intelectual para o nível prático

“Cristianismo” que é apenas conhecimento intelectual não é cristianismo verdadeiro. Colocar Cristo no centro de nosso sistema de crenças é apenas o primeiro passo na direção correta. Uma coisa é pôr Cristo no centro de nosso sistema de crenças e aceitar teoricamente a justificação pela fé. Outra coisa  bastante diferente é experimentar essas verdades. E isso é reforma espiritual.

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Em O Desejado de Todas as Nações (p. 309-310), lemos que

o maior dos enganos do espírito humano, nos dias de Cristo, era que um mero assentimento à verdade constituísse justiça. Em toda experiência humana, o conhecimento teórico da verdade se tem demonstrado insuficiente para a salvação. Não produz os frutos de justiça. […] Os fariseus pretendiam ser filhos de Abraão, e vangloriavam-se de possuir os oráculos de Deus; todavia, essas vantagens não os preservavam do egoísmo, da malignidade, da ganância e da mais baixa hipocrisia. Julgavam-se os maiores religiosos do mundo, mas sua pretensa ortodoxia os levou a crucificar o Senhor da glória.

O mesmo perigo existe ainda. Muitos se consideram cristãos, simplesmente porque concordam com certos dogmas teológicos. Não introduziram, porém, a verdade na vida prática. Não creram nela nem a amaram; não receberam, portanto, o poder e a graça que advêm mediante a santificação da verdade. As pessoas podem professar fé na verdade; mas, se ela não os torna sinceros, bondosos, pacientes, controlados, tomando prazer nas coisas de cima, é uma maldição a seu possuidor e, por meio de sua influência, uma maldição ao mundo.

Jesus é a grande necessidade da igreja hoje, exatamente como era em 1888. Conforme Ellen White escreveu:

Falemos, oremos e cantemos a esse respeito, e isso quebrantará e conquistará os corações. Frases prontas, formais, a apresentação de assuntos meramente argumentativos, não trazem benefício. O amor enternecedor de Deus no coração dos obreiros será reconhecido por aqueles em cujo benefício eles trabalham. As pessoas estão sedentas da água da vida. Não sejam cisternas vazias. Se lhes revelarem o amor de Cristo, vocês poderão levar os sedentos e famintos a Jesus, e Ele lhes dará o pão da vida e as águas da salvação (Review and Herald, 2 de junho de 1903).

(Adaptado do meu artigo publicado originalmente no Comentário da Lição da Escola Sabatina.)

O que é reavivamento e reforma? – parte 1

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“Um reavivamento da verdadeira piedade entre nós, eis a maior e a mais urgente de todas as nossas necessidades. Buscá-lo deve ser nossa primeira ocupação” (Mensagens escolhidas, v. 1, p. 121). Com essas palavras, Ellen White iniciou sua matéria de capa na Review and Herald de 22 de março de 1887. O título era: “A maior necessidade da igreja”.

Hoje, 126 anos depois, essas palavras são familiares aos adventistas, principalmente depois da última assembleia mundial da igreja (2010), que lançou um “apelo urgente por reavivamento e reforma”. Tanto tempo depois, essa ainda é nossa maior necessidade, como indivíduos e como igreja mundial.

Apenas um ano depois daquele enfático chamado ao reavivamento, Deus levantou dois jovens pastores para proclamar uma importante mensagem na assembleia mundial da igreja, realizada na cidade de Minneapolis, nos Estados Unidos. Esses jovens se chamavam Alonzo T. Jones e Ellet J. Waggoner. A pregação deles se tornou conhecida como a “mensagem de 1888”. De acordo com vários estudiosos, esse foi o momento mais decisivo da história da Igreja Adventista.

Participantes da assembleia de 1888

Pouco depois da reunião, Ellen White escreveu:

Quando o irmão Waggoner apresentou essas ideias em Minneapolis, foi a primeira vez que ouvi claramente o ensino a respeito desse assunto vindo de lábios humanos, exceto pelas conversas mantidas entre meu marido e eu. E, quando outra pessoa o apresentou, cada fibra de meu coração disse: “Amém!” (The Ellen G. White 1888 Materials, p. 349).

Em outra ocasião, ela disse, de maneira ainda mais entusiasmada:

Em Sua grande misericórdia, o Senhor enviou preciosa mensagem a Seu povo por intermédio dos pastores Waggoner e Jones. […] Essa é a mensagem que Deus manda proclamar ao mundo. É a terceira mensagem angélica que deve ser proclamada com alto clamor e regada com o derramamento de Seu Espírito Santo em grande medida (Testemunhos para ministros e obreiros evangélicos, p. 91-92).

Em que consiste essa mensagem, e por que ela é tão importante? Nas palavras de Ellen White,

essa mensagem devia pôr de maneira mais preeminente diante do mundo o Salvador crucificado, o sacrifício pelos pecados de todo o mundo. Apresentava a justificação pela fé no Fiador; convidava as pessoas a receber a justiça de Cristo, que se manifesta na obediência a todos os mandamentos de Deus (ibid.).

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A mensagem proclamada por Jones e Waggoner em 1888 tinha por base principalmente a Epístola de Paulo aos Gálatas (clique aqui para saber mais sobre esse livro). Durante a década seguinte, os ensinos de Jones e Waggoner se tornaram tão populares que, em 1900-1901, Waggoner produziu um comentário bíblico e uma Lição da Escola Sabatina (em três trimestres!) a respeito de Gálatas.

Em resultado do trabalho de Ellen White, Jones e Waggoner, foram promovidos inúmeros reavivamentos entre os adventistas durante a década de 1890. Para muitos, Cristo Se tornou um Salvador mais real, e a Bíblia, um livro novo. Muitas pessoas que não conheciam a mensagem bíblica foram alcançadas, e a igreja começou a se envolver, como nunca antes, na proclamação do evangelho em países distantes.

A grande contribuição de Jones e Waggoner foi ter chamado a atenção dos adventistas para a centralidade de Cristo e do evangelho da graça. Para Ellen White, a mensagem de 1888 não se constitui precisamente nas palavras de Jones e Waggoner, mas no ensino bíblico sobre a salvação somente pela graça. Essa foi a fonte do grande reavivamento e reforma que ocorreu durante a década de 1890.

Mas, qual a relevância de tudo isso para os cristãos do século 21? Como podemos experimentar reavivamento e reforma semelhantes? Veremos isso na próxima reflexão.

(Adaptado do meu artigo publicado originalmente no Comentário da Lição da Escola Sabatina.)

O que é reavivamento e reforma? – parte 2

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As nações se iraram; e chegou a Tua ira. Chegou o tempo de julgares os mortos e de recompensares os Teus servos, os profetas, os Teus santos e os que temem o Teu nome, tanto pequenos como grandes, e de destruir os que destroem a Terra. Então foi aberto o santuário de Deus nos Céus, e ali foi vista a arca da Sua aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, um terremoto e um grande temporal de granizo (Ap 11:18-19).

Ponto de virada

Com essa passagem, chegamos a um ponto de virada importante no Apocalipse. A primeira metade do livro (capítulos 1-11) é dividida em igrejas, selos e trombetas, e possui visões introdutórias claramente definidas. A segunda metade do livro (capítulos 12-22) trata principalmente dos eventos finais da história da Terra e possui uma estrutura mais complexa. O ponto de virada entre as duas metades do livro está em Apocalipse 11:18-19.

O versículo 19 é uma cena a respeito do templo celestial, o que sinaliza uma nova seção do livro (veja cenas introdutórias semelhantes em Ap 1:12-20; 4-5; 8:2-6). O versículo 18 é o clímax da sétima trombeta (Ap 11:15-19), mas também antecipa todo o conteúdo posterior do livro (capítulos 12-22). Portanto, Apocalipse 11:18-19 é a chave para se compreender a segunda metade do livro.

Apocalipse 11:18-19 é um texto duodirecional. O estudioso Ranko Stefanovic chama-o de “texto trampolim”. Eu uso a palavra “duodirecional” (isto é, que aponta para duas direções) porque passagens como essa “olham para os dois lados”: para os textos que vêm antes e os que vêm depois. Assim, esses dois versículos são uma chave antecipada que nos ajudam a compreender o sentido da segunda metade do livro, como veremos a seguir.

Olhando para as duas direções

A duodirecionalidade é um padrão literário importante no Apocalipse. Nos livros em geral, os capítulos começam com uma introdução, seguem com a parte principal do texto e terminam com uma conclusão. Porém, no Apocalipse, o autor muitas vezes não conclui uma seção e, então, inicia a seguinte. Em vez disso, insere a introdução de uma seção na conclusão da seção anterior.

O exemplo clássico de duodirecionalidade é Apocalipse 3:21, onde lemos: “Ao vencedor darei o direito de sentar-se comigo em Meu trono, assim como Eu também venci e sentei-Me com Meu Pai em Seu trono”. Esse texto, que é o clímax das sete igrejas (capítulos 2-3), oferece uma introdução aos capítulos que falam sobre os sete selos (capítulos 4-8:1). Uma estratégia literária semelhante ocorre no quinto selo (Ap 6:9-11). Esse é o clímax dos quatro cavaleiros (Ap 6:1-8), mas é também a pergunta introdutória que será respondida nas sete trombetas: “Até quando, ó Soberano, santo e verdadeiro, esperarás para julgar os habitantes da Terra e vingar o nosso sangue?” (Ap 6:10). Eu encontro evidências de um padrão semelhante em Apocalipse 11:18.

Resumo:

  • Apocalipse 11:18-19 é um ponto de virada importante entre a primeira (capítulos 1-11) e a segunda metade (capítulo 12-22) do livro.
  • Essa é uma passagem duodirecional, isto é, aponta para duas direções: conclui as trombetas (capítulos 8-11) e organiza a segunda metade do livro (capítulos 12-22)

Jon Paulien, Ph.D., é diretor da Faculdade de Teologia da Universidade de Loma Linda (EUA). Retirado da sua página no Facebook.

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Os pesquisadores Brian e Deborah Charlesworth assim iniciam sua obra introdutória sobre a evolução:

O consenso na comunidade científica é de que […] todos os organismos existentes na atualidade são os descendentes de moléculas autorreplicantes que se formaram por meios puramente químicos há mais de 3,5 bilhões de anos. As formas sucessivas de vida foram produzidas pelo processo de “descendência com modificação”, como o chamou Darwin, e estão relacionadas umas às outras por uma genealogia ramificada, a árvore da vida. Nós, seres humanos, somos mais próximos dos chimpanzés e dos gorilas, com quem tivemos um ancestral em comum há 6 ou 7 milhões de anos. […] A origem de todos os vertebrados (mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes) remonta a uma pequena criatura similar a um peixe que carecia de espinha dorsal, que existiu há mais de 500 milhões de anos (Brian e Deborah Charlesworth, Evolução [Porto Alegre: L&PM, 2012], p. 9, grifo nosso).

Diante desse consenso científico (ou praticamente isso), é intelectualmente viável continuar sustentando a posição criacionista?

Antes de respondermos essa pergunta, é preciso admitir que, em geral, a defesa do criacionismo mais atrapalha do que ajuda, mesmo do ponto de vista dos que adotam essa visão. O biólogo e paleontólogo criacionista Leonard Brand, Ph.D. em biologia evolutiva pela Cornell University, explica:

Muito do material criacionista existente supõe que a evolução é apenas uma teoria sem sentido que oferece às pessoas uma forma de fugir da verdade sobre Deus. Esses criacionistas pensam que, se os evolucionistas simplesmente enxergassem as evidências óbvias, perceberiam que a Criação é verdadeira. […]

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Ainda que bem-intencionadas, algumas pessoas usam essa abordagem com os jovens cristãos, muitos dos quais frequentam universidades públicas onde cientistas lhes apresentam um gigantesco conjunto de dados que destrói suas crenças criacionistas. Então, esses jovens descobrem que a evolução não é uma teoria estúpida, mas pode ser apoiada por uma esmagadora variedade de evidências. Nesse processo, muitos deles acabam perdendo a fé.

Seria muito melhor explicar aos jovens que os evolucionistas são pessoas inteligentes, que possuem ampla evidência para sua compreensão, mas que há outras maneiras (a nosso ver, melhores) de interpretar as evidências. Embora tenhamos boas razões para nossa posição, não devemos subestimar a habilidade dos evolucionistas em defender a deles (Leonard Brand e Cindy Tutsch, “Presenting evolution and Creation: How? [Part 1]”, Ministry, fevereiro de 2005, p. 21, 30).

Desfazendo mitos sobre o criacionismo

Nesse diálogo, precisamos ter o cuidado de não superenfatizar as diferenças entre a evolução e o criacionismo. O Dr. Leonard Brand esclarece:

A palavra “evolução” significa mudança. Há suficiente evidência de que esse processo evolutivo (ou alguma variação dele) realmente acontece e produz novas variedades e novas espécies. […] Em quase todos os aspectos, intervencionistas [ou criacionistas] e evolucionistas naturalistas concordam sobre a maneira pela qual esses processos acontecem. […]

Embora os intervencionistas sejam com frequência representados como antievolucionistas, o fato é que eles aceitam [a existência de] um processo de mudança morfológica [ou seja, evolução]. […]

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Dois dos mais respeitados livros-texto sobre evolução –  Mark Ridley, Evolução (Porto Alegre: Artmed, 2006) e Douglas J. Futuyma, Biologia evolutiva (Ribeirão Preto: Funpec Editora, 2009) –  apresentam ampla evidência em favor da realidade da microevolução e da especiação. Discutem também padrões no registro fóssil, adaptações biológicas e outros conceitos usados como evidências da megaevolução. Mas esses conceitos não descartam o intervencionismo. […]

É interessante ponderar sobre isso quando participo de encontros de organizações científicas como a American Society of Mammalogists (Sociedade Americana de Mastozoologia) ou a Geological Society of America (Sociedade Geológica Americana). A maioria dos cientistas presentes nesses encontros rejeitaria o intervencionismo, e a maioria provavelmente presume que intervencionistas não podem ser cientistas eficientes. Contudo, provavelmente 80 ou 90 por cento da pesquisa relatada poderiam ser desenvolvidos por qualquer intervencionista com formação na área.

Mesmo na área da evolução, a maior parte do que é estudado se limita a microevolução, especiação e os aspectos da macroevolução aceitos também por intervencionistas. Isso é verdade também em relação à maioria dos aspectos das ciências da terra, especialmente as áreas relacionadas à pesquisa experimental ou à comparação com os processos atuais. Nesses temas científicos, há coletas de dados relevantes e testes de hipóteses eficazes, independentemente da filosofia pessoal  do pesquisador (Leonard Brand, Faith, Reason, and Earth History: A Paradigm of Earth and Biological Origins by Intelligent Design, 2ª edição [Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2009], p. 175-176, 190, 281, 299, grifo nosso).

Um rumo para o criacionismo

Voltemos à pergunta inicial: é ainda academicamente viável, no século 21, sustentar o criacionismo? É possível aceitar o relato bíblico da Criação sem comprometer a integridade intelectual?

Creio que sim. E, na minha opinião, a melhor defesa dessa resposta é apresentada por Fernando Canale no livro Creation, Evolution and Theology: An Introduction to the Scientific and Theological Methods (Criação, evolução e teologia: uma introdução aos métodos científico e teológico) (Libertador San Martín: Editorial Universidad Adventista del Plata, 2009). O Dr. Canale é professor de teologia e filosofia na Andrews University (EUA) e um especialista em filosofia contemporânea. Em breve, esse livro será publicado em português. Até lá, você pode ler a versão prévia desse estudo, publicada em três partes no periódico Andrews University Seminary Studies (, e partes).

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Em poucas palavras, Canale argumenta que a solução para a sobrevivência intelectual do criacionismo é a filosofia contemporânea (pós-moderna).

Mas o pós-modernismo não é ruim?

A compreensão pós-moderna sobre a verdade com frequência é mal-interpretada. Em outro artigo deste blog, “Pós-modernidade: inimiga ou amiga?”, Ed René Kivitz esclarece que a pós-modernidade não “nega a existência da verdade; ela só diz que a razão humana não dá conta de conhecer a verdade”.

Simplificando bastante a argumentação do Dr. Canale, o que ele diz é o seguinte:

A compreensão modernista (iluminista) sobre a razão humana supõe a existência de uma “verdade universal absoluta” independente da contribuição do sujeito (observador). Em outras palavras, a razão humana é capaz de estabelecer, de maneira segura, o que é verdade e o que é erro. Mas o pós-modernismo derrubou o mito da razão como o árbitro absoluto do que é a verdade. A filosofia pós-moderna pode ser resumida pela frase: “Conhecer é interpretar” (Richard Rorty). Ao contrário do que popularmente se imagina, isso não significa negar a existência de uma verdade absoluta, mas negar a afirmação de que alguém é capaz de alcançar um conhecimento absoluto ou preciso.

O filósofo Paul Feyerabend argumenta que, “de acordo com os nossos resultados atuais, dificilmente alguma teoria é consistente com os fatos. A exigência por sustentar somente as teorias que são consistentes com os fatos disponíveis e aceitos nos deixaria novamente sem nenhuma teoria. Repito: sem nenhuma teoria, porque não existe uma única teoria que não possua dificuldades”.

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O mito modernista da ciência consiste na ilusão de que os dados empíricos (produzidos por testes e experiência) são um fundamento que produz resultados “verdadeiros”, absolutos, universais e totalmente seguros. Mas hoje sabemos que os princípios e as regras da ciência são, em si mesmos, o produto de interpretações que mudam com o passar do tempo.

Os cientistas não mais podem supor que a aplicação das “regras corretas” do jogo (método científico) produzirá apenas uma explicação possível da realidade, especialmente quando a questão é tão complexa e abrangente quanto o assunto das origens. Quanto mais complexos são os fatos, maior é a probabilidade de surgirem várias explicações racionalmente possíveis.

Portanto, nem a Criação nem a Teoria da Evolução pode ser considerada “irracional” ou “não científica”; ambas são racionais, mas atuam sob diferentes regras de racionalidade e método. E, no caso de conflito entre teorias, a filosofia pós-moderna sustenta que a razão pode somente nos ajudar a interpretar a realidade, mas não pode decidir qual interpretação é a verdadeira (absoluta). Sendo que a razão não possui regras universais, as escolhas sempre envolvem algum tipo de “fé”, não somente na teologia, mas também na ciência. Tanto a Criação como a Teoria da Evolução produzem explicações coerentes e persuasivas que podem ser aceitas somente com base na “fé” em seus respectivos fundamentos (pressuposições).

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Do ponto de vista da razão humana, Criação e evolução não são fatos, mas teorias que reconstroem eventos passados que permanecem fora da nossa experiência empírica. Em termos de sua condição teleológica, a ciência das origens é histórica (estuda o passado) e, portanto, difere radicalmente do método da ciência empírica (experiências). Em relação à Criação e à Teoria da Evolução, nenhuma corroboração é possível em termos racionais (adaptado de Canale, Creation, Evolution, and Theology, p. 43-51, 160-166).

A fim de se perceber a relevância do livro de Canale, é interessante conferir a resenha crítica feita pelo Dr. Ervin Taylor, um dos mais destacados cientistas cristãos que defendem a Teoria da Evolução (“Review Article: Fernando Canale’s Creation, Evolution, and Theology: The Role of Method in Theological Accommodation”, Andrews University Seminary Studies, v. 46, nº 1 [primavera de 2008], p. 83-90). Embora aponte várias supostas falhas na argumentação de Canale, Taylor afirma que, entre as publicações criacionistas, “esse livro é singular” (p. 83). De acordo com ele, o livro “desmente a imagem popular de que os fundamentalistas […] são desinformados, não instruídos ou intelectualmente inferiores. Essa obra densamente argumentada de erudição deveria pôr fim a esse mito” (p. 89). Por isso, acredito que a argumentação do Dr. Canale (embora bastante simplificada acima) seja o melhor rumo que os criacionistas podem tomar no diálogo sobre evolução e criacionismo.

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No dia 27 de fevereiro, o programa Está Escrito (TV Novo Tempo) lançou na internet esta enquete:

Na sua opinião, a salvação acontece:

  • pela fé somente;
  • pela graça somente;
  • pelas obras somente;
  • pela junção de fé, graça e obras.

No total, 1.048 pessoas responderam, e este foi o resultado:

  • pela fé somente – 6%;
  • pela graça somente – 34%;
  • pelas obras somente – 0,5%;
  • pela junção de fé, graça e obras – 59%.

De acordo com a Bíblia, a alternativa correta é a segunda: pela graça somente.25-salvacao_pela_graca

A salvação acontece pela graça somente, e não pelas obras (obediência à lei). E recebemos essa salvação mediante a fé. Confira alguns textos bíblicos:

Pois sustentamos que o homem é justificado pela fé, independente da obediência à Lei (Rm 3:28).

E, se é pela graça, já não é mais pelas obras; se fosse, a graça já não seria graça (Rm 11:6).

Sabemos que ninguém é justificado pela prática da Lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo. Assim, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pela prática da Lei, porque pela prática da Lei ninguém será justificado (Gl 2:16).

Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça vem pela Lei, Cristo morreu inutilmente! (Gl 2:21).

Aquele que lhes dá o seu Espírito e opera milagres entre vocês realiza essas coisas pela prática da Lei ou pela fé com a qual receberam a palavra? Considerem o exemplo de Abraão: “Ele creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça” (Gl 3:5-6).

Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie (Ef 2:8-9).

Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser encontrado nEle, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé (Fp 3:8-9).

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As obras (obediência) são muito importantes na vida cristã, mas são a consequência da salvação. O seguinte texto apresenta claramente o lugar da graça, da fé e das obras.

Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos (Ef 2:8-9).

Note que não fomos salvos “por” obras, mas “para” boas obras.

A enquete realizada pela TV Novo Tempo mostra que muitos ainda estão confusos a respeito da salvação. As seguintes declarações inspiradas ainda são verdadeiras, mais de cem anos depois de terem sido escritas:

Não compreendemos o assunto da salvação. Ele é tão simples como o ABC. Mas não o compreendemos (Ellen White, Fé e obras, p. 56).

Precisamos de muito mais conhecimento; precisamos ser esclarecidos acerca do plano da salvação. Não existe um dentre cem [na igreja] que compreenda por si mesmo a verdade bíblica sobre esse assunto, tão necessário ao nosso bem-estar presente e eterno. […] Quando a doutrina da justificação pela fé foi apresentada na reunião de Roma [Nova York], ela foi para muitos como água ao viajante cansado (Ellen White, Mensagens escolhidas, v. 1, p. 360).

Veja também: Compreendemos a salvação?

Adoração essencial

Publicado: 06/03/2013 em Comunidade, Espiritualidade

Minha pergunta é sobre a adoração. Quais elementos são apropriados e quais não são?

A sua pergunta é extremamente importante. Um dos elementos principais da nossa missão é conclamar o mundo à adoração a Deus (Apocalipse 14:7). Na busca por diretrizes relevantes para nós hoje, lido com alguns dos principais elementos da adoração bíblica e suas expressões.

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1. Deus é o centro

A adoração é delimitada pelo reconhecimento pessoal e coletivo dos crentes que Deus é exclusivamente digno de suprema honra. Na Bíblia, Deus é o único objeto legítimo e exclusivo de adoração (Êxodo 20:2; Lucas 24:53), o que está fundamentado em Seu poder criador e redentor (Apocalipse 4:11; 5:12). A adoração é a resposta do ser interior à consciência da majestade, mistério e singularidade de Deus, revelados em Sua obra de criação e redenção. Confrontadas por Ele, nossas vidas encontram seu lugar de origem e vibram com alegria, ações de graças e o temor reverente que apenas Deus pode inspirar.

Uma vez que todas as outras coisas no universo pertencem à categoria de seres ou coisas criadas, é repreensível, até mesmo uma abominação, substituir a Deus como o centro da adoração por qualquer outro objeto. Esta visão fundamental da adoração bíblica deveria nos fornecer informações acerca da propriedade de qualquer atividade que seja parte desta adoração.

2. O papel da emoção

Adoração é mais do que uma atitude; é também uma ação. Uma vez que somos seres emocionais, é impossível separar a nossa emoção da prática da adoração. Neste santo ato, louvamos e damos graças a Deus (Salmo 118:28), expressamos nossa alegria e gratidão através de oferendas (1 Crônicas 16:29) e cânticos (Salmo 147:1). Até mesmo clamamos a Ele por livramento, perdão e direção (Salmo 139:23, 24; 142) como uma resposta à Sua presença em nossas vidas. A tentação é usar a adoração como uma avenida sócio-psicológica para “sentir-se bem” acerca de nós mesmos e sermos aceitos pelos outros. Quando isto ocorre, mudamos imperceptivelmente o centro e o foco da adoração para longe do nosso Criador e Redentor, com o risco de cairmos no campo da idolatria. Trazemos a Ele a nossa gratidão, necessidades, medos e preocupações, de forma a louvá-Lo pelo que tem feito e fará por nós.

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3. O papel do corpo

Não podemos separar a expressão da nossa emoção de nosso físico. Na adoração, vimos diante do Senhor como criaturas emocionais e corporais. O ato de adoração envolve nossos corpos como veículos através dos quais nossas emoções se expressam. Na Bíblia, os adoradores erguiam suas mãos para oferecer ao Senhor as suas petições (Salmo 141:2; 1 Timóteo 2:8), ficavam em pé (Marcos 11:25), ajoelhavam-se (1 Reis 8:54) ou se curvavam com suas faces no solo para adorar (Neemias 8:6). Eles usavam as suas línguas e lábios para cantar ao Senhor (Colossenses 3:16) e seus ouvidos para captar a beleza dos instrumentos musicais (Salmo 150:3-5) e a leitura das Escrituras (1 Timóteo 4:13). Adoradores ajuntavam-se em procissões que iam ao templo louvando ao Senhor (Salmo 68:24, 25) e, às vezes, a alegria era expressa através da dança ritual (Salmo 30:11).

A extensão com a qual o corpo é usado para expressar emoções varia de cultura para cultura. O que é apropriado em uma cultura pode ser ofensivo em outra. Desta forma, é importante manter em mente que o propósito da adoração não é estimular as nossas emoções e suas expressões corporais (como às vezes é feito através da música em alto volume), de maneira a criar uma sensação de bem-estar no adorador. Isto, mais uma vez, deslocaria Deus do centro exclusivo da adoração, colocando ali a satisfação de nossas necessidades psicológicas. O envolvimento moderado de nossas emoções e corpo na adoração coletiva não deveria distrair a nós e aos outros daquilo que é provavelmente mais importante, ouvir a Palavra do Senhor e a sua proclamação.

Vamos à igreja para adorar a Deus, louvar, reverenciar e agradecer a Ele por todas as Suas bênçãos, para sermos instruídos através de Sua palavra, para celebrar a Ceia do Senhor, para sermos equipados para proclamar o evangelho, e para a comunhão com outros crentes. Adoração não é uma forma de entretenimento que necessita ser ajustada ao gosto dos indivíduos utilizando práticas de marketing. A música que trazemos, os cânticos que cantamos, as orações que oferecemos, são nossas débeis tentativas de louvar ao Senhor e expressar o nosso amor e gratidão Àquele que tem feito tanto por nós através de Cristo.

Ángel Manuel Rodríguez, doutor em teologia, foi diretor do Instituto de Pesquisa Bíblica da sede mundial da IASD. Publicado originalmente aqui. O texto traduzido foi retirado daqui. (Nota: eu não partilho da visão defendida pelo segundo site.)