O que permanece: normas ou princípios?

Publicado: 25/02/2013 em Espiritualidade, Teologia

Princípios são mais importantes do que normas

Os adventistas já gastaram uma boa quantidade de tinta discutindo as normas da igreja. No decorrer dos anos, percebemos algumas coisas:

Podem surgir verdadeiras tempestades ao redor de um copo d’água. Uma norma pode ter pouca importância, mas as implicações são consideradas imensas, até mesmo eternas.

cupofstorm

Uma boa porção de normas da igreja tem que ver com a conduta, e não com ideias. Com uma ansiedade de arrepiar os cabelos, discutimos exatamente o que comer, o que vestir, ver, ouvir ou ler.

Dificilmente normas podem ser transplantadas de uma cultura para outra, ou de uma geração para a próxima. Depois que tudo tiver sido dito ou feito, normas não são sempre normas.

As normas geralmente encontram a sua mais estrita aplicação nas escolas adventistas.

Algumas normas podem ser mais importantes para nós como emblema de identificação do que pela conduta que aprovam ou rejeitam.

No comércio as normas são essenciais. Segurança, cooperação, eficiência e legitimidade –  todas dependem de que se mantenham normas. Quando compramos leite na mercearia, esperamos que seja pasteurizado, um processo envolvendo padrões estritos. Quando compramos lâmpadas de 100 watts, queremos que iluminem com a potência exata, não 25 watts a menos ou 50 watts a mais.

Uma visão um tanto comercial tomou conta, talvez inconscientemente, da nossa ideia a respeito das normas da igreja. Algumas pessoas não querem maior variação entre os adventistas do que no leite pasteurizado ou em lâmpadas de 100 watts. Mas outros ouvem a palavra “normas” e gemem, rebelam-se, ou simplesmente a ignoram.

regua conduta

Quais são as verdadeiras normas de nossa igreja? Na recém-lançada edição do Manual da Igreja de 1995, descobri 15 itens no capítulo “Normas de vida cristã”. [Salvo indicação, as observações a seguir valem também para a edição atual, revisada em 2010.]

Esta é uma lista incomum. Uma lista desigual. Alguns itens são princípios gerais, como “simplicidade”. Outros não são exclusivos dos adventistas – como a necessidade de estudo da Bíblia e da oração. Alguns são surpreendentes, como “Acompanhantes dos jovens”. [Esse item agora está em outro capítulo.] E outros ainda nos advertem a manter um viver saudável.

Depois, há aquelas normas que conhecemos (e temos debatido) desde nossa mocidade. O Manual ensina que devemos evitar o teatro, a ópera, o cinema e a dança. [A edição atual não menciona o cinema. O teatro e a ópera aparecem somente numa citação de Ellen White. Contudo, de acordo com vários estudiosos, declarações como essa precisam ser entendidas à luz do contexto histórico do século 19. Os princípios, obviamente, são permanentes, o que justifica a citação no Manual. Veja Benjamim McArthur, “Amusing the masses”, em Gary Land, ed., The World of Ellen G. White (Hagerstown, MD: Review and Herald, 1987), p. 177-191; George R. Knight, Ellen White’s World: A Fascinating Look at the Times in Which She Lived (Hagerstown, MD: Review and Herald, 1998), p. 130-140.] Adverte contra os males da ficção. [A posição da IASD é que devemos escolher criteriosamente e analisar as obras de ficção, mas a ficção não é rejeitada sumariamente. Veja o artigo “Adventistas e ficção: outra consideração”, de Scott E. Moncrieff.] Declara que “o uso de joias é contrário à vontade divina (1 Timóteo 2:9)”, embora a aliança matrimonial seja relutantemente permitida em alguns países. [Apesar das controvérsias, a IASD defende que existe base bíblica para a rejeição de “joias ornamentais” e o uso restrito de “joias funcionais”. Veja Ángel Manuel Rodríguez, O uso de joias na Bíblia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2002).]

Tive algumas surpresas. O Manual orienta os adventistas a “manter atitude intransigente em prol da justiça e da retidão nos assuntos cívicos”. [Essa declaração não aparece na edição atual.] Não me ensinaram isso no colégio.

O que mais me surpreendeu foi o que não encontrei. Por exemplo, em outro lugar [do Manual] nos é dito que podemos ser excluídos por prática de jogo, fraude ou deliberada falsidade no comércio. Se o jogo, a fraude e a falsidade são faltas graves a ponto de nos excluir da igreja, por que não são importantes o suficiente para serem chamadas de “normas” da igreja?

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Esta foi uma digressão. Meu objetivo é mostrar que princípios são muito mais importantes do que normas. Em lugar de nos envolvermos com assuntos secundários, precisamos pensar em princípios. Precisamos escrever um novo capítulo no Manual da Igreja, em linguagem convincente e persuasiva, resumindo os princípios adventistas. Ao contrário das normas, os princípios são transplantáveis para outras épocas e culturas.

Valorizamos realmente a simplicidade, por exemplo? Geralmente nós a aplicamos seletivamente (à moda, joias etc.). Se ela é um princípio subjacente, como poderá aplicar-se a nossos lares, carros, viagens, hobbies etc.?

Avancemos ainda mais. Em lugar de esperar que os adventistas em todos os lugares tenham aparência semelhante e ajam de igual modo, vamos ensinar princípios. Vamos viver princípios.

Isso não é fácil. Somos humanos e gostamos de criar normas. São tão mensuráveis, tão fáceis de tornar obrigatórias. Mas, vez após vez, as Escrituras nos admoestam de que as normas podem tornar-se fins em si mesmas.

As normas algumas vezes ocultam a verdade. Jesus notou isso naquele sábado em que colheu grãos para comer, violando uma norma profundamente enraizada de Seu tempo.

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O que disse Jesus? “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Marcos 2:27). Jesus nos deu um princípio! Creio que todos nós haveremos de crescer, e não apostatar, se identificarmos nossos valores básicos cristãos e adventistas e avaliarmos nossas escolhas e ações por esses princípios cada dia.

Kit Watts, na época em que este artigo foi publicado, era editora assistente da Adventist Review. Publicado originalmente em Revista Adventista, março de 1997, p. 11 (grafia atualizada). O artigo está disponível integralmente no site da Revista Adventista.

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Em 2008, o então presidente mundial da Igreja Adventista, pastor Jan Paulsen, fez as seguintes reflexões sobre o programa Let’s Talk, que consistia em diálogos com jovens de diversos países:

A mente dos jovens pode ser bastante “legalista” no sentido de ver o mundo com linhas distintas e definidas. Procuram definir os limites com segurança e clareza. Alguns jovens querem fórmulas e são persistentes. Muitas vezes não estão satisfeitos com princípios; querem respostas específicas. […]

À semelhança de muitos jovens com que conversei, eu também cresci em um lar adventista. Quando cheguei aos 20 anos de idade, era bem legalista em meu modo de pensar. Era impaciente com aqueles que diziam: “Então, talvez não”. Os “talvez não” eram causadores de problemas. No entanto, aprendi, por minha própria caminhada na vida, que há certas situações em que se deve deixar espaço para que os outros cresçam e se desenvolvam para descobrir a vontade de Deus para eles.

Sei de algumas pessoas idosas que, ao ouvir essa conversa, dirão: “Por que ele simplesmente não diz como deve ser essa música, estabelece um limite, bem distinto?” (Adventist World, outubro de 2008, p. 9-10).

Houve um grande avanço no capítulo “Estilo de vida e comportamento cristão” do Tratado de teologia adventista do sétimo dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2011), p. 675-723. Essa obra, que é a mais autorizada exposição das doutrinas adventistas, foi publicada originalmente em 2000. Ela apresenta o estilo de vida no contexto da cosmovisão cristã, da salvação pela graça e da motivação do amor. Também faz clara distinção entre “princípios gerais”, “modelos normativos” (de personagens bíblicos) e “regras de ação”. Muitos temas abordados contêm uma seção a respeito de “questões” contemporâneas relacionadas, que não são tratadas diretamente pela Bíblia. Esse material possui um enfoque nitidamente bíblico e cristocêntrico, não se detendo em minúcias controvertidas. Tendo em vista o grande progresso feito pelo Tratado de teologia, o assunto do estilo de vida provavelmente seja mais um dos muitos exemplos do grande abismo existente entre a teologia oficial da igreja e as crenças populares de muitos membros.

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comentários
  1. A criação de novos mandamentos é ato legalista, como o são a maioria dos adventistas e cristãos no geral.

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