A Bíblia que inventamos – Isaías 28:10

Publicado: 08/02/2013 em Bíblia

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A Bíblia é o livro mais popular do mundo. Essa popularização tão positiva, infelizmente, também ajuda a popularizar equívocos sobre ela. Para muitos, as passagens bíblicas se tornaram tão familiares que se transformaram em meros clichês. “Todo mundo sabe que tal versículo significa determinada coisa.” Será mesmo?

Com base nos princípios apresentados no artigo “Como entender a Bíblia”, vamos estudar alguns dos textos mais mal-interpretados das Escrituras. E talvez não exista melhor exemplo para começar do que uma passagem que supostamente fala sobre como devemos estudar a Bíblia:

“Porque é preceito sobre preceito, preceito e mais preceito; regra sobre regra, regra e mais regra; um pouco aqui, um pouco ali” (Isaías 28:10, ARA).

Interpretação comum

De acordo com muitas séries de estudos bíblicos, Isaías 28:10 é a resposta para a pergunta: “Qual é a maneira correta de estudar a Bíblia?”. Essa passagem ensinaria que devemos estudar “um pouco aqui e um pouco ali sobre o mesmo assunto”. Em outras palavras, “comparar os textos que tratam do mesmo assunto”.

Interpretação contextual

Como o nome sugere, o objetivo desta seção é ler atentamente o contexto, ou seja, os versículos que vêm antes e os que vêm depois. Esse é o princípio mais importante para se compreender a Bíblia.

Tente ler a seguinte passagem como se fosse a primeira vez que você estivesse fazendo isso.

Quando o profeta Isaías apresentava a mensagem de Deus, a reação das pessoas era esta:

“Quem é que está tentando ensinar?”, eles perguntam. “A quem está explicando a sua mensagem? A crianças desmamadas e a bebês recém-tirados do seio materno? Pois o que se diz é: ´Ordem sobre ordem, ordem sobre ordem, regra e mais regra; um pouco aqui, um pouco ali’”.

Pois bem, com lábios trôpegos e língua estranha Deus falará a este povo, ao qual dissera: “Este é o lugar de descanso. Deixem descansar o exausto. Este é o lugar de repouso!”. Mas eles não quiseram ouvir.

Por isso o Senhor lhes dirá: “Ordem sobre ordem, ordem sobre ordem, regra e mais regra, regra e mais regra; um pouco aqui, um pouco ali”, para que saiam, caiam de costas, firam-se, fiquem presos no laço e sejam capturados. Portanto, ouçam a palavra do Senhor, zombadores, vocês, que dominam este povo em Jerusalém. (Isaías 28:9-14)

Acompanhemos o raciocínio do autor.

Depois de ouvirem a mensagem de Isaías, as pessoas diziam: “Quem é que você está tentando ensinar?”. Para elas, as palavras do profeta eram próprias para “crianças desmamadas” e “bebês recém-tirados do seio materno” (v. 9). Então, esses “zombadores” (v. 14) começavam a imitar as palavras ditas pelo profeta: “Ordem sobre ordem, ordem sobre ordem, regra e mais regra; um pouco aqui, um pouco ali” (v. 10). Mas o curioso é que em nenhum lugar do livro de Isaías Deus realmente diz essas palavras. Essa frase é apenas o tom de escárnio do povo!

No texto original em hebraico, as palavras “Ordem sobre ordem, ordem sobre ordem, regra e mais regra; um pouco aqui, um pouco ali” são: sav lasav, sav lasav; kav lakav, kav lakav; ze’êr sham, ze’êr sham. Na verdade, essa frase não têm nenhum significado concreto; é apenas uma imitação zombadora das palavras do profeta. Por isso, algumas excelentes traduções bíblicas, como a Bíblia de Jerusalém, não tentam traduzir essas palavras, mas simplesmente as deixam como estão no texto original. Hoje talvez os ouvintes de Isaías estariam dizendo: “Blá-blá-blá”.

Deus dá uma resposta à altura: se as pessoas achavam que as palavras dEle eram um mero “blá-blá-blá”, era exatamente isso que ouviriam dali em diante. “Com lábios trôpegos e língua estranha Deus falará a este povo” (v. 11). Deus de fato começaria a falar sav lasav, sav lasav; kav lakav, kav lakav; ze’êr sham, ze’êr sham – “blá-blá-blá”, palavras sem sentido. Deus não daria mais sábios conselhos que guiariam a vida do povo. E as consequências da rebeldia seriam trágicas: “Vocês tentarão andar, mas cairão de costas; serão feridos, cairão em armadilhas e serão presos” (v. 13, NTLH). Se o povo achava que Deus falava palavras inúteis, Ele realmente passaria a dizer palavras inúteis.

A paráfrase A Mensagem: a Bíblia em linguagem contemporânea capta bem o sentido de Isaías 28:9-11:

“É mesmo? E quem você pensa que é, para nos ensinar? Quem é você, para nos dar lição de moral? Não estamos mais usando fraldas, para que alguém fale conosco como se fala a um bebê: ‘Gu-gu, dá-dá! Gu-gu, dá dá! Que mocinha bonita! Que menininho comportado!”.

Mas é exatamente assim que se falará com vocês. Deus vai falar com o povo em linguagem de bebê, uma sílaba por vez. (Isaías 28:9-11)

Em vez de nos mostrar como devemos estudar a Bíblia, talvez Isaías 28:10 seja o melhor exemplo de como não devemos fazer isso.

E agora?

Como temos enfatizado, o princípio mais importante para se estudar a Bíblia é ler atentamente o contexto. Mas, depois disso, sem dúvida, precisamos “comparar os textos que tratam do mesmo assunto”. Mesmo que Isaías 28:10 não seja uma boa base para essa ideia, ela está presente em outros textos bíblicos. Essa era a prática do próprio Jesus:

E começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes [a dois discípulos] o que constava a respeito dEle em todas as Escrituras. […]

E disse-lhes: “Foi isso que Eu lhes falei enquanto ainda estava com vocês: Era necessário que se cumprisse tudo o que a Meu respeito está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então lhes abriu o entendimento, para que pudessem compreender as Escrituras. (Lucas 24:27, 44-45)

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