Pós-modernidade: amiga ou inimiga?

Publicado: 03/02/2013 em Pós-modernismo
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A pós-modernidade é o momento em que a modernidade tá questionada e as proposições da modernidade estão questionadas. E aí é o nosso grande momento.

Na minha opinião – e não só na minha, mas de alguns outros camaradas –, a pós-modernidade não é nossa inimiga. É nossa grande amiga. Esse questionamento que se faz à verdade que a pós-modernidade confronta à modernidade, questionando essa afirmação da verdade, que nós sempre tratamos como sendo algo ruim pra nós, cristãos, e pra igreja… Porque nós temos a verdade da Palavra de Deus. Nós temos Jesus, que é a verdade. Nós temos a Palavra do Deus que não pode mentir. Nós dizemos que o sujeito conhece a verdade, e a verdade o libertará.

Nós falamos que, quando os camaradas da pós-modernidade vêm questionar a verdade – e a gente acusa a pós-modernidade de ser relativista –, a gente se assusta e fala: “Esses caras são do capeta. É mais um movimento do demônio pra acabar com a igreja, pra acabar com a verdade do evangelho”.

Negação da verdade?

Mas eu acho que há a possibilidade de a gente fazer uma outra leitura. A modernidade afirma a verdade racional. A pós-modernidade, não é que ela nega a existência da verdade; ela só diz que a razão humana não dá conta de conhecer a verdade. Ela só diz que a verdade não é objeto de método científico. Que há necessidade de uma outra concepção epistemológica, isto é, como é que eu conheço a verdade.

A modernidade dizia: “Pela razão e pela racionalidade”. A pós-modernidade diz: “Não dá. A verdade é muito maior do que a ciência dá conta e do que a razão humana dá conta”. Quando a pós-modernidade diz isso, o que ela faz? Ela coloca em suspeição toda a afirmação de verdade. E aí ela vai gerar discursos muito interessantes.

Como, por exemplo: na pré-modernidade, quando eu dizia o seguinte: “Isso aqui é a verdade”, o sujeito ia falar o seguinte: “Quem disse?”. E eu dizia: “Deus!”. “Então tá bom, é a verdade.” E se o camarada não concordasse que foi Deus quem falou que isso aqui é a verdade, fogueira nele.

Na modernidade, quando eu dizia: “Isso aqui é a verdade”, o sujeito dizia: “Prove. Prove racionalmente que isso aí é a verdade”.

Na pós-modernidade, quando eu digo: “Isso aqui é a verdade”, o sujeito diz: “E daí? Essa é a sua verdade”. Ou o sujeito diz assim: “Quem é você pra ficar dizendo que isso aí é a verdade? Eu também tenho a minha verdade”.

Então, na pré-modernidade, Deus estava no centro. Na modernidade, o homem estava no centro. E, na pós-modernidade, não é que não tem centro. É a subjetividade humana que está no centro. É a famosa frase: “Cada cabeça, uma sentença”. Cada um tem a sua verdade. A pós-modernidade é o tempo quando não há espaço para a afirmação categórica da verdade, porque toda afirmação categórica da verdade estará posta em suspeição. […]

Novas oportunidades

Agora, quando alguém diz assim: “A pós-modernidade acabou com a verdade. A pós-modernidade tornou a verdade subjetiva. A pós-modernidade colocou a verdade em suspeição. A pós-modernidade relativizou a verdade”, eu digo: “Que bom! Isso pra nós é ótimo!”. Porque nós estamos dizendo assim: “Pessoal, todo mundo tá de acordo que a razão humana não dá conta da verdade?”. “Todo mundo!” “Então: a verdade é uma questão de revelação.”

Os pós-modernos vão dizer que a verdade é uma questão de experiência. Então, nós entramos e dizemos: “A verdade é uma questão de experiência, mas é uma questão de revelação”. Por quê? Porque não é a razão humana que se apropria da verdade. É a verdade que se apropria da razão humana. Isso é cristianismo. […]

Nós não andamos por certeza. Andamos por confiança. É diferente. Porque a verdade, pra nós, não é um objeto a ser descrito racionalmente. É uma Pessoa com quem nos relacionamos pela fé.

Relacionamento de confiança

Então, quando a gente descreve a verdade como objeto, eu digo: “Isso aqui [um copo de água] é um copo de Coca-Cola. Verdade ou mentira?” “Mentira.” Então, essa descrição de verdade não cabe pra próxima afirmação: “Eu amo você. Verdade ou mentira?” “Sei lá”; porque agora não é questão de verdade ou mentira porque você vê e, racionalmente, você codifica, decodifica, interpreta, analisa, troca fato com fato.

Agora é uma questão relacional e de confiança. Não é uma questão de descrição objetiva de objetos. É uma questão de relacionamento entre pessoas. E a nossa fala, como cristãos, é que Jesus é uma pessoa. A verdade cristã é uma Pessoa; não é um conceito.

Então eu acho que a pós-modernidade é muito nossa amiga. Porque a modernidade, que afirmava a hegemonia da razão, o mito do progresso, a supremacia do homem e essa ideia toda, a gente diz: “Besteira. O homem não tá com essa bola toda!”.

Ed René Kivitz, mestre em Ciências da Religião, é pastor da Igreja Batista de Água Branca, São Paulo. Possui um blog e desenvolveu a série Talmidim, formada por vídeos curtos com reflexões bíblicas. 

O texto acima foi retirado da palestra “Lutando pela igreja” (a partir de 24min03s), que pode ser assistida neste vídeo:

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