Arquivo de fevereiro, 2013

O que é a igreja?

Publicado: 26/02/2013 em Comunidade, Missão
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1. Comunidade da cruz

A convocação de Jesus Cristo para o discipulado encerra o mais fascinante projeto de vida, pois se inicia na história, dando sentido à peregrinação existencial, e se consuma na eternidade, na plena realização de todo o universo criado, finalmente devolvido às justas e amorosas mãos de seu Criador. No coração deste propósito eterno do Reino de Deus está a Igreja, e mais precisamente a comunidade cristã local. A resposta cristã para a necessidade de um projeto existencial é a vida em comunidade – a comunidade cristã que o Novo Testamento apresenta como “comunidade da cruz”, pois é em resposta à obra da cruz, aos benefícios da cruz e aos imperativos da cruz que a igreja existe.

A salvação não pode ser anunciada somente em termos de eternidade, mas deve confrontar o homem contemporâneo com a cruz de Cristo e convocá-lo a tomar a sua cruz. Para uma sociedade humanista e hedonista, que colhe os frutos amargos do egoísmo e da vida preocupada com o horizonte do umbigo, a Igreja deve se mostrar como lugar onde o viver para si mesmo foi substituído pelo viver para Deus, que, em termos práticos, implica viver para o próximo. Lugar dos egos mortos, mortos na cruz de Cristo, e ressuscitado para uma nova vida, uma nova raça, uma nova humanidade.

2. Comunidade da vida

O Novo Testamento também apresenta a Igreja como “comunidade da vida”, pois aqueles que respondem à cruz de Cristo experimentam o novo nascimento, que dá origem ao novo homem, que experimenta a nova vida. O encontro com Cristo se expressa em categorias éticas, se explica em bases doutrinais, mas é essencialmente uma questão de transformação: quem está em Cristo transcende a natureza humana e se torna participante da natureza divina (2Pe 1:4). Para uma sociedade perdida em neuroses e psicoses, embalada nas drogas e frustrada de dieta em dieta, a Igreja deve se apresentar como ambiente onde a vida de Deus flui, lugar de ajuda do alto, muito além da autoajuda.

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3. Comunidade do amor

A Igreja é também a “comunidade do amor”, pois todos que nasceram de novo em Cristo são desafiados a expressar o amor de Cristo, testemunhando, assim, que são, de fato, discípulos de Cristo (Jo 13:34, 35; 1Jo 3:16; 4:7-21). O relacionamento com Deus é pessoal, a peregrinação cristã é comunitária e, no Evangelho de Cristo, nada, absolutamente nada, é individual. O Reino de Deus existe sob o “Pai nosso”, no qual se partilha o pão nosso. Para uma sociedade chafurdada no egoísmo e trancafiada atrás de grades, guardas e sistemas eletrônicos de segurança, a Igreja deve se apresentar como ambiente fraterno, de acolhimento e reconciliação, lugar de restauração e solidariedade, onde Deus é visto na face do irmão e do próximo. Num tempo em que a solidariedade perde para a poupança e a proposta para acumular bate de goleada no apelo para compartilhar, a Igreja deve ser a mesa da comunhão, “comum-pão”, no qual quem colhe muito não tem sobra e quem colhe pouco não tem falta.

4. Comunidade do carisma

A comunidade cristã é o ambiente prioritário para a manifestação e a experiência da presença de Deus. É o Corpo de Cristo, templo de pedras vivas, habitação do Espírito Santo (1Co 12:12-31; Ef 2:19-22; 1Pe 2:1-9). A Igreja é, portanto, a “comunidade do carisma”, pois é capacitada, através do batismo no Espírito, a experimentar o fruto do Espírito, na dinâmica dos dons do Espírito, sob constantes visitações do Espírito. Toda igreja cristã é carismática, isto é, uma comunidade que convive com fenômenos espirituais – do Espírito-espírito. Ou, conforme John Wimber, a Igreja de Cristo é “naturalmente sobrenatural”. Para uma sociedade mística, cheia de médiuns, gurus, pais-de-santo, magos, duendes e demônios, a Igreja deve se apresentar sem medo de transitar pelas regiões do invisível, e mostrar que não apenas conhece, mas tem ainda nas mãos a autoridade delegada pelo Senhor das Luzes, que determinou que, a partir dela, a Igreja, não haveria mais escuridão definitiva (Mt 16:18, 19; 29:19-20).

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5. Comunidade do Reino

Finalmente, o Novo Testamento ensina que a Igreja é a “comunidade do Reino”, pois a comunidade cristã é responsável por manifestar, aqui e agora, a maior densidade possível do novo céu e da nova Terra, que serão consumados ali e além. A Igreja de Cristo é portadora da promessa do Reino, protagonista dos sinais históricos do Reino e vive na esperança da consumação do Reino. Para uma sociedade que perdeu a esperança e vive “o fim da história e o último homem”, como profetizou Francis Fukuyama, a Igreja deve apresentar o Reino de Deus como utopia. Deve marchar pelas ruas com a canção dos jovens e idealistas cristãos portugueses durante a Revolução dos Cravos: “Oh, vinde vós, os povos de todas as nações, erguei-vos e cantai com alegria, sabei que em breve vem um novo dia; um dia de justiça, um dia de verdade, um dia em que haverá paz na Terra; um dia em que será vencida a morte pela vida e a escravidão enfim acabará”.

Ed René Kivitz, mestre em Ciências da Religião, é pastor da Igreja Batista de Água Branca, São Paulo. Possui um blog e desenvolveu a série Talmidim, formada por vídeos curtos com reflexões bíblicas. Retirado de Outra espiritualidade: fé, graça e resistência (São Paulo: Mundo Cristão, 2006), p. 36-38.

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Princípios são mais importantes do que normas

Os adventistas já gastaram uma boa quantidade de tinta discutindo as normas da igreja. No decorrer dos anos, percebemos algumas coisas:

Podem surgir verdadeiras tempestades ao redor de um copo d’água. Uma norma pode ter pouca importância, mas as implicações são consideradas imensas, até mesmo eternas.

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Uma boa porção de normas da igreja tem que ver com a conduta, e não com ideias. Com uma ansiedade de arrepiar os cabelos, discutimos exatamente o que comer, o que vestir, ver, ouvir ou ler.

Dificilmente normas podem ser transplantadas de uma cultura para outra, ou de uma geração para a próxima. Depois que tudo tiver sido dito ou feito, normas não são sempre normas.

As normas geralmente encontram a sua mais estrita aplicação nas escolas adventistas.

Algumas normas podem ser mais importantes para nós como emblema de identificação do que pela conduta que aprovam ou rejeitam.

No comércio as normas são essenciais. Segurança, cooperação, eficiência e legitimidade –  todas dependem de que se mantenham normas. Quando compramos leite na mercearia, esperamos que seja pasteurizado, um processo envolvendo padrões estritos. Quando compramos lâmpadas de 100 watts, queremos que iluminem com a potência exata, não 25 watts a menos ou 50 watts a mais.

Uma visão um tanto comercial tomou conta, talvez inconscientemente, da nossa ideia a respeito das normas da igreja. Algumas pessoas não querem maior variação entre os adventistas do que no leite pasteurizado ou em lâmpadas de 100 watts. Mas outros ouvem a palavra “normas” e gemem, rebelam-se, ou simplesmente a ignoram.

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Quais são as verdadeiras normas de nossa igreja? Na recém-lançada edição do Manual da Igreja de 1995, descobri 15 itens no capítulo “Normas de vida cristã”. [Salvo indicação, as observações a seguir valem também para a edição atual, revisada em 2010.]

Esta é uma lista incomum. Uma lista desigual. Alguns itens são princípios gerais, como “simplicidade”. Outros não são exclusivos dos adventistas – como a necessidade de estudo da Bíblia e da oração. Alguns são surpreendentes, como “Acompanhantes dos jovens”. [Esse item agora está em outro capítulo.] E outros ainda nos advertem a manter um viver saudável.

Depois, há aquelas normas que conhecemos (e temos debatido) desde nossa mocidade. O Manual ensina que devemos evitar o teatro, a ópera, o cinema e a dança. [A edição atual não menciona o cinema. O teatro e a ópera aparecem somente numa citação de Ellen White. Contudo, de acordo com vários estudiosos, declarações como essa precisam ser entendidas à luz do contexto histórico do século 19. Os princípios, obviamente, são permanentes, o que justifica a citação no Manual. Veja Benjamim McArthur, “Amusing the masses”, em Gary Land, ed., The World of Ellen G. White (Hagerstown, MD: Review and Herald, 1987), p. 177-191; George R. Knight, Ellen White’s World: A Fascinating Look at the Times in Which She Lived (Hagerstown, MD: Review and Herald, 1998), p. 130-140.] Adverte contra os males da ficção. [A posição da IASD é que devemos escolher criteriosamente e analisar as obras de ficção, mas a ficção não é rejeitada sumariamente. Veja o artigo “Adventistas e ficção: outra consideração”, de Scott E. Moncrieff.] Declara que “o uso de joias é contrário à vontade divina (1 Timóteo 2:9)”, embora a aliança matrimonial seja relutantemente permitida em alguns países. [Apesar das controvérsias, a IASD defende que existe base bíblica para a rejeição de “joias ornamentais” e o uso restrito de “joias funcionais”. Veja Ángel Manuel Rodríguez, O uso de joias na Bíblia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2002).]

Tive algumas surpresas. O Manual orienta os adventistas a “manter atitude intransigente em prol da justiça e da retidão nos assuntos cívicos”. [Essa declaração não aparece na edição atual.] Não me ensinaram isso no colégio.

O que mais me surpreendeu foi o que não encontrei. Por exemplo, em outro lugar [do Manual] nos é dito que podemos ser excluídos por prática de jogo, fraude ou deliberada falsidade no comércio. Se o jogo, a fraude e a falsidade são faltas graves a ponto de nos excluir da igreja, por que não são importantes o suficiente para serem chamadas de “normas” da igreja?

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Esta foi uma digressão. Meu objetivo é mostrar que princípios são muito mais importantes do que normas. Em lugar de nos envolvermos com assuntos secundários, precisamos pensar em princípios. Precisamos escrever um novo capítulo no Manual da Igreja, em linguagem convincente e persuasiva, resumindo os princípios adventistas. Ao contrário das normas, os princípios são transplantáveis para outras épocas e culturas.

Valorizamos realmente a simplicidade, por exemplo? Geralmente nós a aplicamos seletivamente (à moda, joias etc.). Se ela é um princípio subjacente, como poderá aplicar-se a nossos lares, carros, viagens, hobbies etc.?

Avancemos ainda mais. Em lugar de esperar que os adventistas em todos os lugares tenham aparência semelhante e ajam de igual modo, vamos ensinar princípios. Vamos viver princípios.

Isso não é fácil. Somos humanos e gostamos de criar normas. São tão mensuráveis, tão fáceis de tornar obrigatórias. Mas, vez após vez, as Escrituras nos admoestam de que as normas podem tornar-se fins em si mesmas.

As normas algumas vezes ocultam a verdade. Jesus notou isso naquele sábado em que colheu grãos para comer, violando uma norma profundamente enraizada de Seu tempo.

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O que disse Jesus? “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Marcos 2:27). Jesus nos deu um princípio! Creio que todos nós haveremos de crescer, e não apostatar, se identificarmos nossos valores básicos cristãos e adventistas e avaliarmos nossas escolhas e ações por esses princípios cada dia.

Kit Watts, na época em que este artigo foi publicado, era editora assistente da Adventist Review. Publicado originalmente em Revista Adventista, março de 1997, p. 11 (grafia atualizada). O artigo está disponível integralmente no site da Revista Adventista.

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Em 2008, o então presidente mundial da Igreja Adventista, pastor Jan Paulsen, fez as seguintes reflexões sobre o programa Let’s Talk, que consistia em diálogos com jovens de diversos países:

A mente dos jovens pode ser bastante “legalista” no sentido de ver o mundo com linhas distintas e definidas. Procuram definir os limites com segurança e clareza. Alguns jovens querem fórmulas e são persistentes. Muitas vezes não estão satisfeitos com princípios; querem respostas específicas. […]

À semelhança de muitos jovens com que conversei, eu também cresci em um lar adventista. Quando cheguei aos 20 anos de idade, era bem legalista em meu modo de pensar. Era impaciente com aqueles que diziam: “Então, talvez não”. Os “talvez não” eram causadores de problemas. No entanto, aprendi, por minha própria caminhada na vida, que há certas situações em que se deve deixar espaço para que os outros cresçam e se desenvolvam para descobrir a vontade de Deus para eles.

Sei de algumas pessoas idosas que, ao ouvir essa conversa, dirão: “Por que ele simplesmente não diz como deve ser essa música, estabelece um limite, bem distinto?” (Adventist World, outubro de 2008, p. 9-10).

Houve um grande avanço no capítulo “Estilo de vida e comportamento cristão” do Tratado de teologia adventista do sétimo dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2011), p. 675-723. Essa obra, que é a mais autorizada exposição das doutrinas adventistas, foi publicada originalmente em 2000. Ela apresenta o estilo de vida no contexto da cosmovisão cristã, da salvação pela graça e da motivação do amor. Também faz clara distinção entre “princípios gerais”, “modelos normativos” (de personagens bíblicos) e “regras de ação”. Muitos temas abordados contêm uma seção a respeito de “questões” contemporâneas relacionadas, que não são tratadas diretamente pela Bíblia. Esse material possui um enfoque nitidamente bíblico e cristocêntrico, não se detendo em minúcias controvertidas. Tendo em vista o grande progresso feito pelo Tratado de teologia, o assunto do estilo de vida provavelmente seja mais um dos muitos exemplos do grande abismo existente entre a teologia oficial da igreja e as crenças populares de muitos membros.

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Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo (Filipenses 3:7-8).

Eu quero conhecer a Cristo. Mas o “Eu quero conhecer a Cristo” é uma gaveta da nossa vida que ocupa cinco minutos por dia, e olhe lá. Não está o “Eu quero conhecer a Cristo” entranhado no nosso dia a dia, nas nossas relações e nos nossos debates públicos. Nós achamos que “Eu quero conhecer a Cristo” tem a ver com hora silenciosa, momento devocional, leitura bíblica diária, período de oração, culto na igreja. Mas vamos imaginar que isso aqui [o cristianismo] é todo um conjunto de afirmações que tem que fazer sentido o tempo todo, todo dia, em todo lugar, em todas as nossas relações. Eu quero o progresso de Cristo, eu quero as atitudes de Cristo, eu busco os interesses de Cristo. E, enquanto eu faço isso, eu vou conhecendo a Cristo. […]

Esforço-me para que eles sejam fortalecidos em seu coração, estejam unidos em amor e alcancem toda a riqueza do pleno entendimento, a fim de conhecerem plenamente o mistério de Deus, a saber, Cristo. NEle estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 2:2-3).

Cristo não é apenas o nosso Mestre a respeito de questões eternas e espirituais. Cristo é o nosso Mestre de vida. Ele entende de economia, Ele entende de psicologia. […] Entende de pedagogia. Cristo entende de política. Quer discutir neoimperialismo com Cristo, Ele discute. Aquilo que diz respeito à realidade que afeta o humano, na contingência da vida. […] Quem diz: “O viver, para mim, é Cristo” (Filipenses 1:21), quer conhecer a Cristo, quer desenvolver o máximo possível do que Paulo fala aos coríntios, a “mente de Cristo” (1 Coríntios 2:16).

Ed René Kivitz, mestre em Ciências da Religião, é pastor da Igreja Batista de Água Branca, São Paulo. Possui um blog e desenvolveu a série Talmidim, formada por vídeos curtos com reflexões bíblicas. 

O texto acima foi retirado da mensagem “Cristo, somente Cristo”, que pode ser assistida neste site. Os trechos citados estão nestas posições: 26min05s–27min32s e 32min03s–33min35s.

Aqui é o novo futuro

Publicado: 23/02/2013 em Espiritualidade, Missão

Eu já ouvi pastores dizendo: “O céu é diferente de tudo o que nós podemos compreender; é como um culto que nunca acaba”, o que pode levar alguns a pensarem: “Isso soa mais como o inferno.” […]

Jesus se referia claramente ao céu como uma dimensão real da criação de Deus, um lugar onde a vontade de Deus, e somente ela, é feita. Céu é aquela região onde as coisas são como Ele deseja que sejam.

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Na terra, muitas vontades são feitas.
A sua, a minha e a de muitos outros.
Logo, no presente, o céu e a terra não são uma unidade.

O que Jesus ensinou,
o que os profetas ensinaram,
o que toda a tradição judaica apontou
e o que Jesus previu
era o dia em que a terra e o céu seriam um.
O dia em que a vontade de Deus seria feita na terra
como é agora feita no céu.
O dia em que a terra e o céu serão o mesmo lugar.

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Essa é a história da Bíblia.
Essa é a história que Jesus viveu e contou.
E ela está escrita no final da Bíblia, em Apocalipse 21:
“Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais Ele viverá.”

A vida na era que há de vir. […]

Uma das coisas que mais chamam a atenção nas imagens que os profetas hebreus usam para descrever essa realidade é como ela é terrena. Vinhos, colheitas, cereais, gente, banquetes, construções e casas. É daqui que eles estão falando, deste mundo, o único que nós conhecemos – porém, resgatado, transformado e renovado. […]

Jesus nos ensina a buscar a vida do céu aqui e agora, e antecipar, assim, o dia em que a terra e o céu serão um.

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Negócios honestos,
arte libertadora,
justiça confiável,
vida sustentável,
cuidados médicos,
educação,
construir um lar,
cultivar um jardim –
são atividades sagradas que podem ser feitas em parceria com Deus, agora, porque continuarão na era que há de vir.

No céu,
na terra. […]

Cerca de um bilhão de pessoas no mundo não têm acesso a água tratada. Mas essas pessoas terão acesso a água limpa na era que há de vir; logo, trabalhar pelo acesso a água tratada para todos é participar, agora, da vida na era que há de vir.

É o que acontece quando o futuro é arrastado para o presente. […]

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Nossa escatologia molda nossa ética.
Escatologia diz respeito aos últimos dias.
Ética diz respeito a como se vive hoje.

O que se acredita sobre o futuro molda, orienta e determina como se vive agora.

Por que alguém fará alguma coisa por este mundo, se acredita que ao morrer vai partir para outro lugar? A noção correta de céu impede a fuga deste mundo e aumenta o comprometimento com ele, como a antecipação do dia em que as coisas serão na terra exatamente como são no céu. – Rob Bell, O amor vence (Rio de Janeiro: Sextante, 2012), p. 29, 43, 36, 45-46.

Talvez alguns acreditem que a compreensão equivocada sobre a salvação pela graça seja um problema restrito aos primeiros cristãos e aos primeiros adventistas. Mas, em realidade, hoje a situação não é muito diferente. Uma pesquisa realizada em 2008, no Unasp, campus Engenheiro Coelho, mostra que muitos adventistas estão confusos quanto à forma como somos salvos por Deus.

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O questionário era formado por dez afirmações, todas erradas. Quase 500 pessoas responderam a ele, e o índice geral de erro foi de 47,5%. É verdade que pode ser difícil avaliar uma frase isolada e, em diferentes contextos, as palavras podem ter diversos sentidos. Mas a pesquisa mostra uma tendência muito clara. Veja abaixo as dez afirmações e o índice de erro em cada uma delas.

  1. Somos salvos por uma combinação de fé e obras: fé no sacrifício de Cristo e obras de obediência aos mandamentos de Deus. – 59,7%
  2. Somos salvos unicamente pela fé, mas obediência aos mandamentos melhora nossa imagem diante de Deus. – 20,7%
  3. A salvação é pela fé, mas para garanti-la temos que viver de modo digno diante de Deus. – 54,6%
  4. Ninguém pode ter a certeza da salvação enquanto seu caráter apresentar falhas e debilidades. – 28,9%
  5. Somente Jesus pode resolver o problema de nossos pecados passados, mas a solução para os pecados presentes é uma vida de obediência e santidade diante de Deus. – 55,6%
  6. Justificação é o que Deus faz por nós ao nos perdoar; santificação é o que nós fazemos por Ele ao obedecermos Seus mandamentos. – 65,3%
  7. Deus exige de nós perfeição, o que só é possível mediante a completa obediência à lei. – 32%
  8. A justiça de Cristo aceita pela fé é nosso passaporte para o Céu, mas o visto de entrada é nossa perfeita conformidade aos mandamentos de Deus. – 61%
  9. No dia do juízo, nossa absolvição ou condenação dependerá daquilo que fizemos ou deixamos de fazer. – 57,4%
  10. Só serão glorificados aqueles que nesta vida alcançarem vitória sobre todos os pecados e tendências pecaminosas. – 43,8%

Nos anos posteriores a 1888, Ellen White passou a enfatizar que devemos continuar a obra da Reforma do século dezesseis (O grande conflito, p. 78, 148, 253; Historical Sketches, p. 249). E sabemos que o coração da Reforma Protestante foi a centralidade de Cristo e da Sua graça na obra de salvação.

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Mas 120 anos depois, o evangelho de muitos de nós ainda se parece mais com o de Tomás de Aquino (teólogo medieval) do que com o de Lutero e Calvino. Em vez de aprender a lição de 1888 e avançar para a conclusão da obra, muitos de nós continuamos presos à Idade Média, crendo num evangelho muito mais católico que protestante. O seguinte conselho continua muito relevante em nossos dias:

Exaltem a Jesus, vocês que ensinam o povo, exaltem-nO nos sermões, em cânticos, em oração. Que todas as suas forças convirjam para dirigir ao Cordeiro de Deus almas confusas, transviadas, perdidas. Ergam o ressuscitado Salvador e digam a todos quantos ouvem: “Venham Àquele que ‘os amou e Se entregou a si mesmo por nós’ (Ef 5:2)”. Que a ciência da salvação seja o tema central de todo sermão, de todo hino. Seja ela manifestada em toda súplica. Não introduzam em suas pregações nada que seja um suplemento a Cristo, sabedoria e poder de Deus. Mantenham perante o povo a Palavra da vida, apresentando Jesus como a esperança do arrependido e a fortaleza de todo crente. Revelem o caminho da paz à alma turbada e acabrunhada, e manifestem a graça e a suficiência do Salvador (Obreiros evangélicos, p. 160).

Adaptado de Wilson Paroschi, “Antes e depois de Minneapolis”, Parousia, 1º e 2º semestre de 2009, p. 153-163. Disponível integralmente neste site. Paroschi, Ph.D., é professor de Interpretação do Novo Testamento no Unasp.

Saiba mais:

George R. Knight, A mensagem de 1888 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003).

George R. Knight, Pecado e salvação. A ser lançado em breve pela Casa Publicadora Brasileira.

Wilson Paroschi, Só Jesus: porque em nenhum outro há salvação (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1998).

Hans K. LaRondelle, O que é salvação (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997).

Compreendemos a salvação? – parte 1

Qual é o lugar que Cristo ocupa em nossa fé? Acreditamos que Cristo é suficiente para o perdão de nossos pecados e a salvação de nossa alma? Acreditamos que “não há salvação em nenhum outro”, que “abaixo do céu não existe nenhum outro nome dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4:12), a não ser Jesus Cristo?

Acreditamos que Cristo é de fato “tudo em todos”? (Colossenses 3:11). Pregamos o evangelho do Cristo crucificado, ou um evangelho mesclado com obras e realizações humanas? Um evangelho no qual Cristo tem que conviver, ou quem sabe até mesmo disputar lugar com nossas próprias virtudes e atos de obediência e justiça de nossa parte?

Chist The Way, The Truth, The Life

Christ the Way of Life (Cristo, o caminho da vida), um dos quadros mais importantes da história adventista

Nos primeiros anos da história adventista, Cristo ocupava lugar de destaque em nossa fé e experiência cristã. Mas não demorou para que pouco a pouco nossos pioneiros começassem a perdê-Lo de vista, sobretudo no desejo de defender a validade da lei de Deus e em particular do quarto mandamento.

Convictos de que a verdade da lei e do sábado era a última mensagem de Deus ao mundo antes da volta de Jesus, infelizmente muitos acabaram se tornando legalistas em sua teologia e vida cristã. Eles acreditavam no sacrifício expiatório de Cristo na cruz, mas acabaram desenvolvendo o conceito de que tal sacrifício não provia perdão senão apenas para os pecados passados. Uma vez perdoados, pensavam eles, é nosso dever obedecer a Deus para que finalmente possamos herdar a vida eterna.

O cristão perante a lei de Deus no juízo. Mas onde está Cristo?

O pastor adventista J. F. Ballanger publicou um artigo em 1891, dizendo que, “para dar satisfação aos pecados passados, a fé é tudo. É realmente precioso o fato de que o sangue de Cristo apaga todos os nossos pecados e purifica o registro passado. Somente a fé nos faz apropriar-nos das promessas de Deus”. E ele prosseguiu: “Mas, o nosso dever atual é o que nos compete realizar”. E qual é esse “dever atual”? “Obedeça a voz de Deus e viva, ou desobedeça e morra” (Review and Herald, 20 de outubro de 1891).

Nesse contexto, Ellen White chegou a declarar:

Como povo, temos pregado tanto a lei até estarmos tão secos como as colinas do Gilboa, que não recebiam nem orvalho nem chuva. […] Não devemos de modo algum confiar em nossos próprios méritos, mas nos méritos de Jesus de Nazaré (Review and Herald, 11 de março de 1890).

Foi exatamente nesse contexto que dois jovens pastores adventistas, Ellet J. Waggoner e Alonzo T. Jones, apoiados por Ellen White, se levantaram na assembleia mundial da igreja de 1888, em Minneapolis (EUA). Eles enfatizavam que a justiça humana não passava de trapos de imundícia, como diz o profeta Isaías (Is 64:6), tanto antes quanto depois da conversão. Tudo era pela fé em Cristo, diziam eles. Obras de justiça humana não contam, nem antes nem depois de havermos sido justificados.

E. J. Waggoner

Várias vezes, Ellen White enfatizou que os adventistas em geral não compreendiam a verdade da salvação pela graça:

Nossas igrejas estão perecendo por falta de ensino sobre o assunto da justiça pela fé em Cristo e verdades semelhantes (Obreiros evangélicos, p. 301).

O inimigo de Deus e do homem não quer que essa verdade seja claramente apresentada, pois sabe que, se o povo a aceitar plenamente, o seu poder estará despedaçado (Obreiros evangélicos, p. 161).

Os pastores têm de ser ensinados a se demorar mais pormenorizadamente sobre os assuntos que explicam a verdadeira conversão. […] Não há um ponto que necessite ser realçado com mais diligência, repetido com mais frequência ou estabelecido com mais firmeza na mente de todos, do que a impossibilidade de o homem caído merecer alguma coisa por suas próprias e melhores boas obras. A salvação é unicamente pela fé em Jesus Cristo (Fé e obras, p. 16).

Não compreendemos o assunto da salvação. Ele é tão simples como o ABC. Mas não o compreendemos (Fé e obras, p. 56).

Precisamos também de muito mais conhecimento; precisamos ser esclarecidos acerca do plano da salvação. Não existe um dentre cem que compreenda por si mesmo a verdade bíblica sobre este assunto, tão necessário ao nosso bem-estar presente e eterno. Quando começa a brilhar a luz, para tornar claro ao povo o plano da redenção, o inimigo opera com toda a diligência, para que a luz seja excluída do coração dos homens. […] Há grande necessidade de que Cristo seja pregado como única esperança e salvação. Quando a doutrina da justificação pela fé foi apresentada na reunião de Roma [Nova York], ela foi para muitos como água ao viajante cansado (Mensagens escolhidas, v. 1, p. 360).

Compreendemos a salvação? – parte 2