A essência da Torá

Publicado: 29/01/2013 em Bíblia

No judaísmo, o princípio supremo da Lei de Deus é chamado pikuach nefesh (“a preservação da vida humana”). Uma de suas bases se encontra em Levítico 18:5, em que Deus diz: “Obedeçam aos Meus decretos e ordenanças, pois o homem que os praticar viverá por eles”. O propósito da Lei é a vida e o bem-estar humano. Disso os rabinos concluíram que a vida humana (o “espírito” da Lei) é mais importante que o cumprimento externo de uma ordem (a “letra” da Lei).

Com base nesse princípio, os judeus desenvolveram outro grande princípio, chamado ya’avor v’al ye’hareg (“transgredir e não morrer”). Ele se baseia, dentre outros textos, em Levítico 19:16: “Não se levantem contra a vida do seu próximo”. Deve-se fazer todo o possível para preservar a vida de uma pessoa. Por isso, um judeu não somente pode, mas deve violar qualquer mandamento bíblico para salvar uma vida. (Com exceção de três mandamentos: idolatria, imoralidade sexual e assassinato.) Na maioria dos casos, mesmo a integridade de uma parte do corpo está incluída na “preservação da vida”. A Lei é um meio, e não um fim em si mesmo.

Acredito que é nesse contexto que devemos entender alguns dos ensinos aparentemente mais revolucionários de Jesus. Certa vez, num diálogo a respeito do sábado, Ele disse aos fariseus:

Ou vocês não leram na Lei que, no sábado, os sacerdotes no templo profanam esse dia e, contudo, ficam sem culpa? […] “Desejo misericórdia, não sacrifícios” [Oseias 6:6]. […] Qual de vocês, se tiver uma ovelha e ela cair num buraco no sábado, não irá pegá-la e tirá-la de lá? Quanto mais vale um homem do que uma ovelha! Portanto, é permitido fazer o bem no sábado (Mateus 12:5, 7, 11-12). O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado (Marcos 2:27).

O raciocínio de Jesus, talvez estranho para muitos de nós, fazia todo o sentido para os fariseus. Afinal, foram eles que haviam formulado os grandes princípios pikuach nefesh (“a preservação da vida humana”) e ya’avor v’al ye’hareg (“transgredir e não morrer”). Por isso, nesses diálogos, os fariseus não tinham respostas para oferecer a Jesus. Ele não estava fazendo nada mais do que repetir o que eles próprios ensinavam diariamente ao povo.

O problema com muitos fariseus era mais prático do que teológico. É por isso que Jesus advertiu a respeito deles: “Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam” (Mateus 23:3).

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