Arquivo de janeiro, 2013

A espiritualidade da perfeição traçada pela “meticulosa observância” [dos mandamentos] é algo insano e maléfico. Do ponto de vista psicológico, redunda clinicamente em psicogenia. Na visão que caracteriza a Terapia da Imperfeição, provoca a insurgência de um tipo de neurose direcional: o perfeccionismo é uma neurose que consiste na perda do sentido de direção. O indivíduo acaba por desorientar-se, por perder-se em relação à própria realidade, ou seja, em relação ao que ele é. Essa perda de sentido ou direção ocorre no mais profundo do ser humano: precisamente onde o homem descobre seu ser limitado e lhe é exposta a exigência radical de seguir, ou o caminho que o faz ‘voltar’ para si mesmo, ou o que o afasta de seu próprio ser limitado. […]

O inventário das culpas obteve como resultado que as almas “ímpias” se afastassem progressivamente da Igreja e que muitas das que eram “piedosas’, possuidoras de espírito religiosamente sensível, se tornassem facilmente vítimas de torturas psicológicas sutis. […]

O desejo de ser perfeitos, conforme postulado [pelo perfeccionismo], é contraproducente. […] Nota-se muito ressentimento entre os “justos” e os “honestos”. Muitos juízos a respeito de pessoas, condenações e preconceitos entre os “santos”. Muita ira entre as pessoas que se mostram muito preocupadas em evitar o “pecado”.

A atitude de inquisidor vem a ser o “precipitado” psicológico de uma perspectiva perfeccionista. […] Não há perfeccionista que não seja inquisidor, nem inquisidor que não seja perfeccionista. – Ricardo Peter, A imperfeição no evangelho (São Paulo: Paulus, 2000), p. 67-71.

Infelizmente, a realidade descrita acima não se limita a muitos judeus da época de Jesus ou do cristianismo medieval. Não é simplesmente algo a que se opuseram os autores do Novo Testamento, há 2 mil anos, ou Ellen White durante toda a sua vida, 100 anos atrás. Essa é uma realidade que está bem perto de nós e que produz escravidão, culpa, desunião, falta de amor e afastamento de Deus – as mesmas consequências que o pecado. Recentemente, uma cantora adventista escreveu o seguinte no Facebook:

Andando pelo Brasil afora, e ouvindo relatos de jovens que se sentem oprimidos com meias verdades, querendo de mim uma palavra de libertação e consolo, constato como algumas igrejas perderam o foco, viciando o povo a olhar para “usos e costumes” ainda nos dias de hoje, de civilização e cultura urbana, como se fossem leis, para simplesmente abafarem a podridão do que realmente é pecado. Mas enquanto meu Deus mandar, vou continuar fazendo a obra que Ele me mandou fazer, que é espalhar seu Amor e Graça por onde eu passar. Estou convicta e firme em Sua palavra, e somente em Sua santa palavra. Tudo em minha vida é dele e pra Ele, e somente Ele pode sondar os corações, aleluia! Como sou feliz com meu Jesus, é Ele quem abre nossos olhos, nossos corações, e ouve nosso clamor, pedindo por sabedoria e discernimento. Que o nosso querer seja apenas conhecê-lO mais e mais. Que Deus tenha misericórdia das nossas crianças, dos nossos jovens, do nosso povo!

Para saber mais sobre os males do legalismo e do perfeccionismo, e ter uma compreensão bíblica sobre a obediência, veja o artigo do teólogo adventista George Knight, “Eu costumava ser perfeito”, disponível neste site. Veja também os seguintes livros dele: The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness: A Study of Sin and Salvation (Boise, ID: Pacific Press, 1992) e I Used to Be Perfect: A Study of Sin and Salvation (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2001).

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Um dos mal-entendidos mais comuns a respeito da Igreja Adventista do Sétimo Dia está relacionado à sua crença acerca da igreja de Jesus Cristo. O que os adventistas realmente ensinam sobre a existência de uma “igreja verdadeira”? Como eles consideram as outras denominações cristãs? Desenvolvem eles uma missão isolada do restante dos cristãos? Com frequência, entre os próprios adventistas, essas questões não são compreendidas corretamente. Para esclarecê-las, a seguir estão vários textos retirados da literatura oficial (ou, em alguns casos, representativa) da Igreja Adventista. 

A igreja de Jesus Cristo

“A igreja é a comunidade de crentes que confessam a Jesus Cristo como Senhor e Salvador. […] A igreja é a família de Deus; adotados por Ele como filhos, seus membros vivem com base no novo concerto. A igreja é o corpo de Cristo, uma comunidade de fé, da qual o próprio Cristo é a cabeça.” – Crenças fundamentais dos adventistas do sétimo dia, nº 12.

“A igreja universal se compõe de todos os que verdadeiramente creem em Cristo.” – Crenças fundamentais dos adventistas do sétimo dia, nº 13.

“Os que constituem o último povo remanescente de Deus na história serão um povo espiritual que ‘incluirá cada verdadeiro e fiel seguidor de Cristo’ (Questões sobre doutrina, p. 194) dentre muitas denominações e religiões.” – Hans K. LaRondelle, “O remanescente e as três mensagens angélicas”, em Tratado de teologia adventista do sétimo dia, ed. Raoul Dederen (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2011), p. 888.

“Possivelmente um dos questionamentos mais críticos enfrentados por qualquer eclesiologia [compreensão sobre a igreja] é o seguinte: onde reside a plenitude da igreja de Cristo? Os cristãos já deram várias respostas a essa importante pergunta. Os católicos em geral defendem que a plenitude da igreja se encontra na Igreja Católica Romana, em particular na comunhão mútua do papa e dos bispos. As igrejas ortodoxas orientais insistem que a verdadeira ortodoxia foi preservada por eles e, por isso, são a igreja verdadeira, a expressão da plenitude da igreja de Cristo. Os protestantes costumam acreditar que a plenitude da igreja se encontra localizada em diferentes comunidades cristãs nas quais o evangelho e os sacramentos são compreendidos e proclamados de forma clara. […]

“Os adventistas diferem dessas opiniões eclesiológicas, afirmando que a plenitude da igreja de Cristo não reside em nenhuma organização eclesiástica específica. Não se trata da negação do valor da organização eclesiástica, mas da afirmação de que a igreja não é, por definição, uma estrutura hierárquica. Tal convicção é parte do efeito de uma eclesiologia firmemente enraizada na convicção de que a igreja é constituída por aqueles que aceitaram a Cristo como Salvador e Senhor. […]

“Lidamos especificamente com a natureza da igreja em duas de nossas crenças fundamentais. Os adventistas compreendem que a igreja é ‘a comunidade de crentes que confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador’. Os fiéis ‘se unem para adoração, comunhão, instrução na Palavra e celebração da ceia do Senhor, para servir a toda a humanidade e para proclamar o evangelho em todo o mundo’. Sua autoridade provém de Cristo e da Palavra escrita. Como corpo de Cristo, a igreja é ‘uma comunidade de fé da qual o próprio Cristo é a cabeça’ (Crenças fundamentais dos adventistas do sétimo dia, nº 12). Esse entendimento da igreja não exclui a utilidade de estruturas organizacionais, mas descreve a igreja como muito mais do que um fenômeno institucional. Consiste fundamentalmente de uma comunidade de crentes. […]

“Como entendemos [a] ‘igreja universal’? Observamos que ela ‘é composta por todos que creem verdadeiramente em Cristo’ (Crenças fundamentais dos adventistas do sétimo dia, nº 13). Essa definição consiste numa rejeição prática do denominacionalismo, já que a igreja em si é descrita como uma entidade que transcende fronteiras denominacionais. A ‘igreja universal’ não é personificada em nenhuma organização cristã específica, mas se encontra espalhada pelo mundo cristão. […]

“A eclesiologia adventista, desenvolvida a partir da perspectiva do remanescente, reconhece que a igreja de Cristo é mais ampla do que sua expressão por meio do remanescente. Existe uma ‘igreja universal’ ‘composta por todos que verdadeiramente creem em Cristo’ […]. A igreja se encontra espalhada pelo mundo religioso e não pode ser identificada com nenhuma organização eclesiástica em específico. [… Na segunda vinda de Cristo,] a plenitude do remanescente escatológico será realidade e a união da igreja alcançará sua mais profunda manifestação.” – Ángel Manuel Rodríguez, “O remanescente do tempo do fim e a igreja cristã”, em Teologia do remanescente: uma perspectiva eclesiológica adventista, org. Ángel Manuel Rodríguez (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012), p. 211-212, 217 (ênfase no original).

A missão da igreja

“Para evitar equívocos ou conflitos em nossos relacionamentos com outras igrejas cristãs e organizações religiosas, estas diretrizes foram estabelecidas:

“1. Reconhecemos essas agências que exaltam o nome de Jesus perante a humanidade como parte do plano divino para a evangelização do mundo, e sentimos grande estima por homens e mulheres cristãos em outras comunhões [ou denominações] que se encontram engajados em ganhar almas para Cristo.” – “Relationships with Other Christian Churches and Religious Organizations”, em Working Policy of the General Conference of Seventh-day Adventists 2006-2007 (Hagerstown, MD: Review and Herald, 2006), p. 482.

“Hoje a situação do mundo mudou [em relação à época dos apóstolos] e, olhando da perspectiva adventista, os judeus não são o público-alvo primário da nossa mensagem, nem as sinagogas judaicas as portas de entrada naturais para nossos evangelistas. A relevância da Igreja Adventista do Sétimo Dia deve ser vista, fundamentalmente, no contexto do mundo cristão. Nossa mensagem central, a tríplice mensagem angélica de Apocalipse 14 – a mensagem da iminência do juízo, da queda de Babilônia e da validade dos mandamentos de Deus, em particular o quarto mandamento – é a mensagem a ser levada ao mundo cristão. Num contexto pagão ou não cristão, a tríplice mensagem angélica se torna secundária. É por isso que os judeus, os árabes e mesmo os neo-pagãos [e seculares] da sociedade pós-moderna exigem, pelo menos a princípio, uma mensagem e uma abordagem diferentes.” – Wilson Paroschi, “Os pequenos grupos e a hermenêutica: evidências bíblicas e históricas em perspectiva”, em Teologia e metodologia da missão: palestras teológicas apresentadas no VIII simpósio bíblico-teológico sul-americano, ed. Elias Brasil de Souza (Cachoeira, BA: CePliB, 2011), p. 353-354.

Imagine que você faz parte de um grupo que está ouvindo um preletor empolgante que diz: “Eu tenho ótimas notícias! Você não precisa mais temer a maldosa Shelob. Sua presença hipnótica é bem enfraquecida pelo Frasco de Galadriel. Embora a maldade de Sauron ainda se desenvolva a leste, sua missão de carregar o Anel até a Montanha da Perdição está garantida, e, enquanto você se apegar à Espada Élfica e com sabedoria usar o Frasco Resplandecente, estará seguro. Continue seguindo Sméagol, por ora, e no seu caminho vá pela Passagem de Cirith Ungol. Não são ótimas notícias?”.

Se você leu o livro de J. R. R. Tolkien, O senhor dos anéis, provavelmente irá compreender o que o pregador disse. Você até deve ter reconhecido alguns nomes e sentido alguma emoção quando foram mencionados. […]

Mas, se você não leu a trilogia de mais de mil páginas, não terá noção do que estava sendo dito nem se importaria muito com Frodo e seu Frasco. […]

Você não acha que a experiência de alguém que conhece pouco ou quase nada sobre esse livro é parecida com a de tantos jovens [e adultos] pós-cristãos que escutam a explicação dos ensinamentos bíblicos, incluindo o evangelho de Jesus? Começamos pelo meio de uma história que eles não conhecem ou que conhecem muito pouco e principalmente pelas experiências negativas. Oferecemos a eles uma fuga de um perigo que eles desconhecem e usamos palavras que não fazem parte do vocabulário deles. – Dan Kimball, A igreja emergente: cristianismo clássico para as novas gerações (São Paulo: Editora Vida, 2008), p. 211-212.

É perigoso rotular determinadas coisas de “cristãs”. A palavra cristão aparece pela primeira vez na Bíblia como substantivo [Atos 11:26; 26:28; 1 Pedro 4:16]. Os primeiros seguidores de Jesus foram chamados de cristãos porque haviam-se dedicado a viver da mesma maneira que o Messias, e que eles criam ser Jesus.

Substantivo. Um indivíduo. Um indivíduo que segue Jesus. Uma pessoa que vive em sintonia com a realidade suprema. Deus. Uma forma de vida que gira em torno de uma pessoa viva.

O problema de transformar o substantivo em adjetivo e em seguida associá-lo a palavras é que podem criar-se categorias que limitem a verdade. Veja o que quero dizer.

Determinada coisa pode ser rotulada de cristã e não ser verdadeira nem boa. Eu estava falando numa conferência de pastores alguns anos atrás e um pastor muito conhecido falaria depois de mim. Pensei em ficar no auditório quando tivesse terminado minha palestra porque eu queria ouvir o que ele diria. Foi chocante. Ele disse a uma sala cheia basicamente de pastores que, se a igreja deles não estava crescendo, se eles não eram felizes o tempo inteiro e se não eram saudáveis nem bem-sucedidos, era porque provavelmente não foram “chamados e escolhidos por Deus” para serem pastores. Não consigo imaginar como essa mensagem chegou ao coração e à mente daqueles pastores ouvintes. Não conseguia entender como ele fez que aqueles versículos dissessem aquilo. E era um pastor cristão falando numa igreja cristã a outros pastores cristãos. Aquilo, porém, não era verdade.

Isso ocorre em todos os campos. É possível uma música ser qualificada de cristã e ser uma música horrível. Podem faltar-lhe criatividade e inspiração. A letra pode não passar de clichês reciclados. Aquele conjunto “cristão” pode na verdade dar má fama a Jesus por não ser uma boa banda. É possível um filme ser um filme “cristão” e ser horrível. Pode, na verdade, profanar aquela arte com o roteiro e a produção. Não é só porque um livro é cristão, de um autor cristão e comprado numa livraria cristã que seja um livro todo verdadeiro e bom ou belo. […]

“Cristão” é um excelente substantivo, mas como adjetivo é muito pobre. […]

Trabalhar “para Deus”

Entendo que ser cristão é fazer seja o que for com muita paixão e dedicação. Nós nos dedicamos a nosso trabalho porque tudo é sagrado. Adoro o jeito de Paulo dizer isso em Colossenses: “Tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, falam-no em nosso do Senhor Jesus…” (Colossenses 3:17). O apóstolo está ensinando aqueles crentes a viver como cristãos, e assim tudo quanto eles fizerem será trabalho sagrado, santo. A música já é adoração. A música é louvor. A música é sagrada. A música é boa. A criação não precisa de nenhum rótulo para ser sagrada ou aceitável, ou abençoada. Quando Deus fez o mundo, Deus chamou tudo de “bom” [Gênesis 1:31]. Claro, sem dúvida, qualquer coisa pode ser corrompida e profanada e pode ser usada com finalidades diferentes das que Deus pretende, mas fazer música é sagrado. Paulo diz isso assim: “Pois tudo que Deus criou é bom…” (1 Timóteo 4:4). […]

É por isso que é impossível ao cristão ter um trabalho secular. Se seguimos Jesus e fazemos o que fazemos em Seu nome, esse trabalho deixa de ser secular, é sagrado. Estamos nele, Deus está nele. A diferença é nossa consciência. […]

Um dia desses, alguém me perguntou o motivo de nossa igreja não apoiar as artes. Isso porque não temos dramatizações nem peças nos cultos. Eu atinei com a pergunta. Como quase todas as perguntas, ela remete à criação. Não creio que algo tenha de estar num culto da igreja para ser feito “para Deus”. Como se a única manifestação artística feita “para Deus” fosse a que se realiza num culto da igreja.

Igreja é uma comunidade de pessoas que estão aprendendo a ser o tipo de gente que, não importa onde se encontre, pode fazer o que quer que seja “no nome do Senhor Jesus”. O objetivo não é trazer o trabalho de cada um para dentro da igreja; o objetivo é que a igreja seja esse tipo singular de pessoas que transformam o lugar onde vivem, trabalham e se divertem, porque elas sabem que toda a Terra está cheia da kavod [glória] de Deus [Isaías 6:3]. Deus não Se limita a um prédio construído por homens. Fazer coisas para Deus é o que ocorre o tempo todo, em todo lugar. Se você é ator, o objetivo não é que você faça seu trabalho num edifício da igreja, no culto. Por favor, vá a qualquer lugar no mundo onde as pessoas encenem e faça isso bem. Muito bem. Empenhe-se em sua arte e dê tudo a ela.

Como se vê, os rótulos acabam não dando certo, não importa quanto sejam úteis de vez em quando, porque a vida de Jesus é tão somente esta: uma vida vivida por gente que a orientou toda segundo o propósito de ser fiel aos ensinos de Jesus. – Rob Bell, Repintando a igreja: uma visão contemporânea (São Paulo: Editora Vida, 2008), p. 99-102.

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Nem a Reforma Protestante e nem a pregação das três mensagens angélicas conseguiu acabar com as grandes congregações. A centralidade de Cristo no plano da salvação foi restaurada, como também o foi o papel preponderante da fé como meio de se alcançar a salvação. A verdade do santuário celestial, a proximidade do juízo e a perene validade da lei de Deus, em particular do mandamento do sábado, também foram restauradas, mas continuamos com uma religião massificada, com congregações enormes, onde a participação se limita a uns poucos privilegiados, e talvez essa seja uma das principais razões pelas quais ainda não conseguimos concluir a obra.

Para não mencionar o excessivo ritualismo que não raras vezes caracteriza, por exemplo, a celebração da Santa Ceia em algumas de nossas igrejas, com cerimônias cansativas que se estendem por horas a fio, sendo que a maior parte do tempo é gasta tão somente com a distribuição do pão e do vinho. Em várias congregações, esse problema já foi resolvido com a distribuição conjunta dos emblemas e a adoção de cálices descartáveis, que não necessitam ser recolhidos.

Retorno às igrejas-do-lar?

O plano dos pequenos grupos é certamente muito bem-vindo. Ele contribui para resolver o problema das grandes congregações, embora não consista senão num retorno parcial ao modelo das igrejas-do-lar do cristianismo primitivo. Apenas um retorno completo – impossível, na minha opinião – àquele modelo, ou seja, pequenas congregações com, no máximo, umas poucas dezenas de membros, poderia gerar o nível de participação, comunhão e consagração necessários para que avancemos definitivamente rumo à conclusão da obra. E considero tal retorno impossível, em primeiro lugar, por causa da nossa própria cultura eclesiástica. Dificilmente construiríamos pequenos edifícios com capacidade para quarenta ou cinquenta membros apenas em vez de um edifício maior que comporte duzentas ou trezentas pessoas. Uma mudança cultural, portanto, precisaria preceder a mudança de paradigma. Em segundo lugar, o custo e as dificuldades logísticas de se substituir as grandes igrejas por pequenas congregações praticamente inviabilizaria a ideia, pelo menos a curto e médio prazo. É por isso que devemos apoiar o esforço pelos pequenos grupos. Embora, nos moldes atuais, não representem exatamente a prática primitiva da igreja, eles, sem dúvida, consistem na melhor opção para os problemas inerentes à massificação congregacional. […]

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As igrejas-do-lar do período apostólico (e pré-Constantino) não parecem ter sido implantadas em virtude de um imperativo divino, mas como resultado de circunstâncias específicas que as tornaram praticamente inevitáveis. Isso não significa, porém, (1) que Deus não estivesse guiando as decisões e os destinos da igreja; (2) que o modelo não tenha sido uma tremenda bênção para a igreja apostólica e pós-apostólica; ou (3) que não devamos nos esforçar para retornar a esse modelo. E é aqui que os pequenos grupos se encaixam. Embora não sendo um retorno completo ao modelo do cristianismo primitivo, eles certamente consistem na melhor estratégia disponível e viável no momento para diminuir o impacto das grandes congregações, que não propiciam o envolvimento e a interação necessários para que haja plena saúde e crescimento espiritual, tanto individual quanto coletivo. […]

Comunhão e missão

Grupos pequenos têm uma lógica inerente tão clara e óbvia que qualquer imperativo bíblico nesse sentido chegaria a ser redundante. Além disso, nem tudo o que é bom ou nem tudo o que fazemos precisa obrigatoriamente ser respaldado por um explícito precedente bíblico ou recomendação divina. Não é assim, por exemplo, com a Escola Sabatina, o Culto Jovem, o Clube de Desbravadores e vários outros programas da igreja? Mesmo que não tenham explícita base bíblica, ninguém ousaria dizer que eles são inválidos ou estão em desarmonia com a razão de ser da igreja. Dentro dos claros parâmetros ou princípios estabelecidos pelas Escrituras, temos liberdade para buscar alternativas e estratégias que levem à otimização dos vários departamentos e atividades da igreja como um todo e, assim, levá-la a cumprir mais cabalmente a obra que lhe foi designada. […]

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[Por meio dos pequenos grupos,] pode-se trabalhar também com a singeleza e espontânea comunhão que deve haver entre os membros da igreja, o amor sincero que deve uni-los, a oração de uns para com os outros, o encorajamento mútuo e o testemunho cristão. […]

A verdade é que talvez nunca tenha sido da vontade de Deus que tivéssemos grandes congregações com centenas e, muito menos, milhares de membros. No período de maior crescimento da igreja, período esse que se estendeu até o início do quarto século, as igrejas-do-lar, com no máximo umas poucas dezenas de membros, foram o instrumento mais eficiente para manter a igreja unida, fervorosa e dinâmica naquele que, talvez, tenha sido o período mais difícil de sua história. Não tenho dúvida de que os pequenos grupos poderão ter um efeito semelhante nestes momentos finais de nossa história na Terra.

Wilson Paroschi, Ph.D., é professor de Interpretação do Novo Testamento no Unasp. Retirado de “Os pequenos grupos e a hermenêutica: evidências bíblicas e históricas em perspectiva”, em Teologia e metodologia da missão: palestras teológicas apresentadas no VIII Simpósio Bíblico-Teológico Sul-Americano, ed. Elias Brasil de Souza (Cachoeira, BA: CePliB, 2011), p. 366-369 (intertítulos acrescentados).

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Ninguém que pretenda ser santo é realmente santo. […] Quanto mais se aproximam de Cristo, mais lamentam suas imperfeições em comparação com Ele, pois sua consciência se torna mais sensível, e percebem melhor o pecado, assim como Deus o percebe. – Ellen White, Reavivamento verdadeiro, p. 49 (grifo nosso).

À medida que você avança na vida cristã, estará constantemente crescendo rumo à medida da estatura da plenitude de Cristo. Em sua experiência, você provará a largura e o comprimento, a profundidade e a altura do amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento. Você sentirá sua indignidade. Não terá nenhuma disposição de reivindicar perfeição de caráter, mas somente de exaltar a perfeição de seu Redentor. Quanto maior e mais rica for sua experiência no conhecimento de Jesus, mais humilde você será aos seus próprios olhos. Quanto menor você se sentir ao pé da cruz, mais clara e mais exaltada será sua concepção de seu Redentor. […]

Assim, quando o servo de Deus contempla a glória do Deus do Céu, tal como Ele é revelado à humanidade, e percebe, mesmo que em pequeno grau, a pureza do Santo de Israel, confessará intensamente a corrupção de sua alma, em vez de se orgulhar de sua santidade. […]

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Eu me assusto e me sinto indignada quando ouço um pobre e caído mortal exclamar: “Eu sou santo; estou sem pecado!”. Ninguém a quem Deus concedeu uma extraordinária visão de Sua grandeza e majestade jamais declarou algo semelhante. Ao contrário, eles se sentiam afundados na mais profunda humilhação da alma quando viam a pureza de Deus e, em contraste com ela, as imperfeições de sua própria vida e caráter. Apenas um raio da glória de Deus, um vislumbre da pureza de Cristo, penetrando na alma, torna cada mancha de corrupção dolorosamente distinta, e põe a descoberta a deformidade e os defeitos do caráter humano. Como pode alguém que é trazido perante o santo padrão da lei de Deus, a qual revela as intenções malignas, os desejos não santificados, a infidelidade do coração, a impureza dos lábios, e desnuda a vida – como pode tal pessoa ter qualquer pretensão de santidade? Seus atos de deslealdade ao quebrantar a lei de Deus, são expostos à sua vista, e seu espírito é quebrantado e afligido sob a perscrutadora influência do Espírito de Deus. Ele repugna a si mesmo, à medida que vê a grandeza, a majestade, a pureza e o imaculado caráter de Jesus Cristo.

Quando o Espírito de Cristo alcança o coração com seu maravilhoso poder renovador, há um senso de deficiência na alma, que leva à contrição de mente e a humilhação própria, em vez do orgulhoso alarde do que a pessoa tem alcançado ou feito. […]

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Quem foi tocado por Deus desse modo jamais se encobrirá com justiça própria ou com uma pretensa veste de santidade; mas detestará seu egoísmo, abominará seu egocentrismo, e buscará constantemente, por meio da justiça de Cristo, aquela pureza de coração que está em harmonia com a lei de Deus e o caráter de Cristo. – Ellen White, Review and Herald, 16 de outubro de 1888 (grifo nosso).

Enquanto durar a vida não haverá ocasião de repouso, nenhum ponto a que possamos atingir e dizer: “Alcancei tudo completamente”. A santificação é o resultado de uma obediência que dura a vida toda. […] Quanto mais nos aproximarmos de Jesus, e quanto mais claramente distinguirmos a pureza de Seu caráter, tanto mais claro veremos a excessiva malignidade do pecado, e tanto menos nutriremos o desejo de nos exaltar. […] A cada passo para a frente em nossa experiência cristã, nosso arrependimento se aprofundará. Saberemos que nossa suficiência está em Cristo unicamente, e faremos nossa a confissão do apóstolo: “Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Romanos 7:18). – Ellen White, Atos dos apóstolos, p. 314 (grifo nosso).