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Publicado: 19/05/2013 em Pós-modernismo

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O evangelho é a superação da religião. O cristianismo é uma religião. O evangelho é, portanto, a superação do cristianismo. O silogismo proposto carece de esclarecimentos. Não pode ser compreendido sem uma adequada noção dos conceitos de evangelho e religião.

O sociólogo venezuelano Otto Maduro, em seu livro Religião e Luta de Classes, define religião como “conjunto de discursos e práticas, referente a seres anteriores ou superiores ao ambiente natural e social, em relação aos quais os fiéis desenvolvem uma relação de dependência e obrigação”.

A definição de Otto Maduro permite identificar dois importantes aspectos do fenômeno religioso: seus fundamentos e sua lógica. Quanto aos fundamentos, a expressão “conjunto de discursos e práticas” aponta para as bases da religião: discursos, ou dogmas – corpo doutrinário; rito, ou práticas litúrgicas; e tabu, ou códigos morais. Considerados esses fundamentos, o evangelho não pode ser classificado como religião.

Embora tenha suas doutrinas e afirmações dogmáticas, a essência do evangelho é o relacionamento com uma pessoa – Jesus Cristo –, e não com um “conjunto de crenças” racional e cartesianamente organizado: “Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). Em relação aos ritos e práticas litúrgicas, sabemos que o evangelho extrapola absolutamente o cerimonialismo religioso e torna obsoleto o debate a respeito de onde e como adorar a Deus, pois “Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24). A adoração legítima e autêntica é a consagração da vida como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1), em detrimento do que se faz nos templos, até porque “Deus não habita em templos feitos por mãos humanas” (At 7.48), tendo como morada (Ef 2.20-22) uma casa espiritual construída com pedras vivas (1Pe 2.5).

Finalmente, o evangelho, cujo novo mandamento é amar com o amor do Cristo (Jo 13.34), jamais poderá se classificar como tabu, ou régua reguladora de comportamento moral, pois “no amor não há Lei” (Gl 5.22-23), o que estabelece a proposta cristã como uma nova consciência, baseada na mente (1Co 2.16) e na atitude do Cristo (Fp 2.5-11), que extrapolam qualquer enquadramento moral ou legal.

Considerando as categorias das ciências da religião que encaixam o fenômeno religioso na moldura dos dogmas, ritos e tabus, é surpreendente que o evangelho seja considerado religião. O evangelho é a superação da religião. Não é adesão a dogmas, mas relação mística com o Deus revelado em Jesus de Nazaré; não é celebrado em ritos, mas na dinâmica do Espírito que faz da vida toda uma festa para a glória de Deus; não se restringe à observação de regras comportamentais, mas se estabelece a partir de uma profunda transformação do ser humano, que é arrancado de si mesmo na direção de seu próximo em amor.

A definição de Otto Maduro permite também perceber a lógica inerente ao fenômeno religioso: a “relação de obrigações e benefícios” com os “seres superiores”. A religião se sustenta na lógica da justiça retributiva: o fiel cumpre suas obrigações e recebe a bênção; falha no cumprimento do que lhe compete no contrato com a divindade e em troca recebe o castigo e a maldição. A impossibilidade humana de atingir quaisquer que sejam os padrões definidos pelos deuses, ou mesmo Deus, faz surgir necessariamente o sistema sacrificial. Por definição, o divino está na categoria da perfeição, enquanto o humano, da finitude e da imperfectibilidade moral. Para escapar dos castigos e maldições, a religião oferece os sacrifícios compensatórios, necessários para afastar a ira dos deuses e conquistar seus favores.

O evangelho é a superação das relações de mérito (justiça retributiva) e dos sistemas sacrificiais. Jesus é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), e inaugura uma nova dimensão de relação entre Deus e os homens, não mais baseada no mérito, mas na graça, a elegante opção autodeterminada de Deus de abençoar “bons e maus, justos e injustos”, pois “Deus é amor” (1Jo 4.8). Aquele que se apropria do evangelho sabe que “Aquele que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós”, também “nos dará juntamente com ele, pela graça, todas as coisas” (Rm 8.32), e desfruta a liberdade e a paz com Deus e a paz de Deus (Rm 5.1; 8.1), pois “o amor lança fora todo o medo” (1Jo 4.18).

À sombra da cruz do Calvário, onde o escandaloso amor de Deus é revelado (Jo 3.16; 1Co 1.23), é surpreendente que o evangelho seja encaixotado nas categorias da religião, que tem como fundamento as “relações de obrigações e benefícios”, e sobrevive de enclausurar corações e consciências nos limites estreitos do medo e da culpa.

É urgente a melhor compreensão dos termos que estabelecem a distinção entre o evangelho de Jesus Cristo e o cristianismo compreendido nos termos das ciências da religião. O cristianismo, como sistema religioso organizado e institucionalizado, é culpado do pecado de quebra do terceiro mandamento. O cristianismo, em qualquer período da história e contexto sociocultural, se assemelha muito mais a todos os demais fenômenos religiosos que ao evangelho que pretendeu superar. É uma pena que os cristãos estejam, ainda hoje, exageradamente apegados às discussões e aos debates dogmáticos, aprisionados a cerimoniais ritualísticos templocêntricos e clericais, quixotesca e desnecessariamente ocupados na tentativa de subjugar e controlar moralmente o comportamento social, e tristemente, escravizados pelos sistemas sacrificiais e meritórios, que não fazem mais do que multiplicar as fileiras dos “decepcionados com Deus”.

Chegou o tempo quando homens e mulheres que serão tomados por loucos devem, em plena manhã, acender uma lanterna, correr aos templos cristãos e gritar incessantemente: “Onde estão aqueles que não se envergonham do evangelho?”.

Ed René Kivitz, mestre em Ciências da Religião, é pastor da Igreja Batista de Água Branca, São Paulo. Possui um blog e desenvolveu a série Talmidim, formada por vídeos curtos com reflexões bíblicas. Retirado de Ultimato, janeiro-fevereiro de 2013, p. 50-51.

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Publicado: 26/04/2013 em Bíblia, Teologia
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Apareceu no céu um sinal extraordinário: uma mulher vestida do sol, com a lua debaixo dos seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça. Ela estava grávida e gritava de dor, pois estava para dar à luz (Ap 12:1-2).

A mulher (povo de Deus) está grávida e em trabalho de parto. A analogia entre uma mulher em trabalho de parto e Israel é comum no Antigo Testamento (Is 26:17-18; 66:7-9; Jr 4:31; Mq 4:10). Mas, embora a expressão “gritava de dor” reflita as palavras gregas para trabalho de parto, há uma frase adicional que nem sempre é bem traduzida. A mulher está “atormentada” (basanizomenê) no processo de dar à luz. Uma vez que essa não é a linguagem normal para descrever o nascimento em grego, Stefanovic sugere que a intensidade da dor da mulher seja devido à tentativa do dragão de destruir o filho assim que Ele nasça (12:4).

Jon Paulien, Ph.D., é diretor da Faculdade de Teologia da Universidade de Loma Linda (EUA). Retirado da sua página no Facebook.

Nota: este post ainda não está completo; ele será atualizado em breve.

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Quando falamos em “missão”, geralmente pensamos em pessoas que moram em lugares distantes, cuja língua e cultura são radicalmente diferentes da nossa. […] Mas a maioria dos cristãos ocidentais acharia mais fácil compartilhar sua fé em Fiji, na Indonésia ou em Zimbábue do que em Nova York, Sydney ou Londres [ou São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre]. Portanto, é tempo de pensar seriamente sobre a missão no mundo ocidental. […]

Hoje, os adventistas estão empenhados como nunca antes no evangelismo público. Na maioria das igrejas, acontecem evangelismo por satélite, seminários proféticos e vários programas usados como pontos de contato (cursos sobre como deixar de fumar, saúde, relacionamento familiar). Pessoas continuam a ser alcançadas com a mensagem do evangelho. Existem testemunhos notáveis de conversão.

Mas precisamos ser honestos com nós mesmos. Uma típica igreja adventista não está transformando sua comunidade local, e muito menos o mundo, através de suas atividades. Não estamos afetando significativamente o coração da cultura ocidental. […]

Muitos preferem deixar a audiência [secular e pós-moderna] fora de seu alcance de consideração. Pensam que não devemos ir ao encontro das pessoas seculares nos próprios termos delas. Dizem o seguinte: “A verdade é a verdade, e ela não deve ser diluída para agradar aqueles que não seguem a Deus. Nosso trabalho é apresentar a mensagem como a conhecemos e amamos, e, se os outros não gostam dela, é problema deles”. […]

Deus vai ao encontro

Contudo, a Bíblia é clara sobre a importância de se dar cuidadosa atenção à cultura da audiência. “As lições deviam ser dadas à humanidade na linguagem da própria humanidade” (Ellen White, O desejado de todas as nações, p. 34). Quanto mais você se familiariza com a Bíblia, mais claro se torna que cada parte da Palavra de Deus foi dada no tempo, local, idioma e cultura de seres humanos específicos.

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Paulo, com seu título de “Ph.D.”, expressa a revelação de Deus de maneira diferente do pescador Pedro. João escreve num grego simples, claro, quase infantil. Por outro lado, o autor de Hebreus escreve num grego complexo e literário. Em Mateus, você vê alguém que compreende a mentalidade judaica e busca alcançá-la. Marcos, por outro lado, alcança a mentalidade gentílica. […]

A linguagem do Novo Testamento não era o grego erudito de Platão e Aristóteles, não era o grego das leis e dos discursos. Era a linguagem do dia a dia! Era a linguagem que as pessoas falavam nas ruas. O Novo Testamento não foi escrito numa linguagem celestial, nem na linguagem da elite cultural, mas na linguagem do dia a dia de pessoas do dia a dia. No Novo Testamento, Deus saiu de Seu caminho para ir ao encontro das pessoas onde elas estavam!

Ellen White afirma:

As Escrituras foram dadas aos seres humanos, não em uma cadeia contínua de ininterruptas declarações, mas parte por parte através de sucessivas gerações, à medida que Deus, em Sua providência, via oportunidade apropriada para impressionar as pessoas nos vários tempos e diversos lugares. […]

A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira de pensar e exprimir-se de Deus. Esta é da humanidade. Deus, como escritor, não Se acha representado. […]

O Senhor deu Sua Palavra justamente pela maneira que queria que ela viesse. Deu-a por meio de diferentes escritores, tendo cada um sua própria individualidade, embora repetindo a mesma história. […] Eles não dizem as coisas exatamente no mesmo estilo. Cada um tem uma experiência sua, própria, e essa diversidade amplia e aprofunda o conhecimento que vem satisfazer as necessidades das variadas mentes (Mensagens escolhidas, v. 1, p. 19, 21-22, grifo nosso).

Tudo para com todos

É esse princípio que motivou Paulo em suas atividades missionárias. A mais clara reflexão de Paulo sobre o assunto, 1 Coríntios 9:19-23, é uma ordem divina para se desenvolver o ministério com pessoas seculares. Paulo diz que alcançar pessoas que são diferentes de nós requer um sacrifício considerável. Se nós temos pouco sucesso em compartilhar o evangelho com pessoas secularizadas, é porque não escolhemos fazer esse sacrifício.

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Embora seja livre de todos, fiz-me escravo de todos, para ganhar o maior número possível de pessoas. Tornei-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da Lei, tornei-me como se estivesse sujeito à Lei (embora eu mesmo não esteja debaixo da Lei), a fim de ganhar os que estão debaixo da Lei. Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (embora não esteja livre da lei de Deus, e sim sob a lei de Cristo), a fim de ganhar os que não têm a Lei. Para com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns. Faço tudo isso por causa do evangelho, para ser co-participante dele (1Co 9:19-23).

Essa é uma ordem para alcançarmos pessoas que são “diferentes” de nós. É uma ordem para aprendermos a falar às pessoas em uma linguagem que faça sentido a elas. […]

Deus nos convida a seguirmos Seu exemplo e irmos ao encontro das pessoas onde elas estão.

Jon Paulien, Ph.D., é diretor da Faculdade de Teologia da Universidade de Loma Linda (EUA). Retirado de Everlasting Gospel, Ever-changing World: Introducing Jesus to a Skeptical Generation (Boise, ID: Pacific Press, 2008), p. 13-18.

Pastor Kleber Gonçalves

A Nova Semente é o primeiro projeto oficial da Igreja Adventista na América do Sul para alcançar os pós-modernos. Ela faz parte das mais de vinte comunidades similares espalhadas pelo mundo e vinculadas ao Centro de Estudos Seculares e Pós-modernos da sede mundial da igreja.

Para liderar tanto a Nova Semente como esse centro de estudos, foi escolhido o pastor Kleber Gonçalves. Ele possui doutorado (Ph.D.) em missão urbana e pós-modernismo, pela Andrews University (EUA), a mais importante universidade adventista.

Em breve, vou postar trechos de uma entrevista realizada com o pastor Kleber, que explica de maneira mais clara e prática como podemos proclamar o evangelho no contexto pós-moderno. Mas, agora, quero apresentar algumas informações sobre a tese de doutorado desenvolvida por ele.

A tese do pastor Kleber tem como título “A critique of the urban mission of the church in the light of an emerging postmodern condition” (Uma crítica da missão urbana da igreja à luz de uma emergente condição pós-moderna). Ela foi defendida em janeiro de 2005.

Resumo da tese

Este é o resumo que aparece na própria tese:

O mundo está se tornando uma sociedade urbana. A expansão urbana observada no século 20 e no início do século 21 não tem precedentes na história da civilização humana. Ao mesmo tempo, o mundo ocidental experimenta a mudança de paradigma da era moderna para uma condição pós-moderna. Ambos os eventos têm implicações notáveis para a missão da igreja em uma sociedade urbana e em processo de pós-modernização. Marcada pela cosmovisão do modernismo, a igreja experimenta hoje um ostracismo oriundo da condição pós-moderna.

Apesar de a literatura sobre a missão urbana ter crescido nos últimos anos, pouca consideração tem sido dada às questões específicas e às implicações da missão urbana no contexto da pós-modernidade. Por isso, este estudo aborda a relação entre a missão urbana da igreja e a emergência da condição pós-moderna.

Esta pesquisa sobre a missão urbana à luz do ethos pós-moderno se baseia na análise histórica, filosófica, sociológica e cultural das eras moderna e pós-moderna provida, respectivamente, nos capítulos 2 e 3. O capítulo 4 explora a relação entre a missão urbana da igreja e a condição pós-moderna primariamente ao situar o surgimento do pós-modernismo no contexto da urbanização e da globalização. O capítulo 5 apresenta algumas implicações missiológicas e sugere princípios para alcançar a mente pós-moderna em um contexto urbano, a partir das descobertas desta pesquisa.

No início do século 21, o poder centralizador da cidade, adicionado pela influência de um mercado global, torna o meio urbano o locus do pós-modernismo. Consequentemente, os desafios e as oportunidades de uma missão urbana nunca foram tão grandes. Apesar de alguns grandes problemas que o pós-modernismo levanta para a missão, essa corrente sociocultural oferece oportunidades inexistentes há poucas décadas. Portanto, dentro do contexto da interação das forças da urbanização, da globalização e do pós-modernismo, uma revisão profunda das estratégias e dos métodos da missão urbana é vital para o desenvolvimento de igrejas sensíveis ao fenômeno pós-moderno, à medida que a igreja busca atender o seu chamado a participar na missão divina direcionada a uma geração urbana e cada vez mais pós-moderna.

Fonte: Kerygma: revista eletrônica de teologia, 1º semestre de 2008, p. 62.

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Olho para a família da igreja, especialmente para os que têm menos de 35 anos, e que estão tomando decisões muito importantes para a vida. Eles não refletem mais simplesmente as atitudes e crenças de seus pais, professores ou pastores. Estão testando esses valores por si mesmos, decidindo se irão mantê-los, modificá-los ou trocá-los por algo totalmente diferente.

Então, eu penso nos muitos jovens que estão saindo da igreja, e isso me angustia profundamente. É difícil saber o número exato, mas não ficaria surpreso se metade das pessoas que crescem nessa família mundial se afastam por um motivo ou por outro. E mesmo que não sejam tantos, os números ainda são altos, muito altos.

Por que tantos deixam a igreja? Arrisco-me a simplificar um assunto tão relevante, mas quero apresentar algumas reflexões que tomaram forma em minha mente ao longo dos anos, e que, recentemente, ganharam um crescente senso de urgência para mim.

Adolescentes 

Há muitos anos, aconteceu algo com um jovem que era muito próximo de mim. Ele estava lutando contra várias questões ao mesmo tempo, e não era fácil para ele se levantar e ir para a igreja todos os sábados. Certo sábado de manhã, ele chegou à porta da igreja um pouco atrasado, usando calça jeans. O primeiro ancião, quando o viu, disse: “Você não está vestido de maneira apropriada. Vá para casa e troque de roupa”. Ele foi para casa e não voltou mais.

Ali começou a sua longa jornada pelo deserto espiritual, onde ele passou muito, muito tempo. Mais tarde, ele saiu daquele deserto, porém mais por amor aos seus pais e pela certeza do imenso amor que tinham por ele.

Esse foi incidente o único motivo para ele deixar a igreja? Não. Mas, para ele, foi o momento exato em que a igreja lhe disse: “Você realmente não se encaixa entre as pessoas que frequentam este local. Vá para casa e se adéque aos nossos padrões”.

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Muitos adolescentes decidem deixar a igreja por se sentirem “marcados”. Eles se sentem indignos; sentem-se inúteis; não se sentem à vontade dentro da igreja para debater questões sobre estilo de vida e comportamento que eles e seus amigos estão enfrentando. Poderíamos fazer uma longa lista dessas questões: atividades sociais, música e entretenimento, relacionamentos e sexualidade, a necessidade de expressar um crescente senso de individualidade e independência. Os jovens falam sobre essas coisas entre si, com o sentimento de que serão condenados se alguém os ouvir.

Como podemos compreender os adolescentes de maneira mais adequada?

Faça-o de modo pessoa Pense na sua própria família, em seus filhos. É difícil seu filho ou sua filha “merecerem” algo de você? Claro que não! Eles são sangue do seu sangue, carne da sua carne.

Se tomarmos tempo para considerar cada jovem de nossa congregação como nossos próprios filhos e filhas, haveria uma incrível mudança de visão. Somente quando o adolescente sente na comunidade da igreja o mesmo tipo de calor que sente (ou, pelo menos, deveria sentir) na intimidade da sua família, poderemos encontrar soluções.

Isso precisa ser algo pessoal. Essa não é uma tarefa que deve ser delegada ao pastor de jovens, aos desbravadores ou à Escola Sabatina. É a minha atitude para com os jovens da minha congregação que faz a diferença. Como eles reagem às minhas palavras e atitude para com eles?

Contextualize  Os adolescentes falam e fazem “loucuras”; simplesmente fazem. São adolescentes, e falar e fazer “loucuras” está dentro da normalidade deles. É natural a eles testar coisas novas, fazer escolhas, perturbar e abalar a rotina. Pode ser pela pressão do grupo, por um ato de rebeldia ou simplesmente pelo fato de que cresceram em um mundo (o “mundo adventista”) e querem experimentar, vivenciar um “outro mundo”. É muito simples: os valores dos pais não são transmitidos geneticamente. O adolescente está testando e questionando – esse é um processo natural a essa etapa da jornada. Portanto, precisamos estender a tolerância e a paciência e estar dispostos a ampliar a nossa visão.

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Lembre-se: você já passou por isso e também cometeu erros. Muitos erros!  Você consegue se lembrar de quando era adolescente? Às vezes, você não estava satisfeito consigo mesmo. Você tinha consciência de tudo o que acontecia: percebia cada espinha no seu rosto, cada falha no seu modo de agir e sentia que era extremamente vulnerável à opinião dos outros.

Uma palavra impensada falada por um membro mais velho da congregação pode ter enormes consequências para um jovem cuja autoimagem é facilmente danificada. Do mesmo modo, algumas palavras de incentivo podem ter um impacto positivo que não pode ser medido.

Jovens e universitários

Há os que sobrevivem à adolescência e ainda estão nos bancos da igreja, pelo menos na maioria dos sábados. Estão terminando os estudos, embarcando na carreira profissional e formando suas famílias. O que faz a diferença entre os que criam raízes fortes em uma comunidade de crentes e os que se movem vagarosamente em direção à porta?

Relevância  Pense em um grupo de jovens amigos jovens, que ocasionalmente se reúnem para conversar. Eles falam sobre vários assuntos do interesse deles. E, às vezes, conversam sobre a igreja. Para eles, perguntas como estas são muito importantes: “Quão relevante é o adventismo? Será que ele tem algo importante a dizer sobre questões da vida cotidiana, justiça social, pobreza e direitos humanos, meio ambiente, ética, economia? Na prática, que diferença realmente faz o rótulo de ‘adventista’?”.

Hands on a globe

Para muitos jovens, ver como essas perguntas são respondidas pela igreja pode determinar se eles ficam ou saem. Estão desencantados com a religião centralizada apenas no futuro e que negligencia completamente o presente. Não que eles tenham deixado de crer no que a igreja ensina, mas perderam a fé na habilidade dela de falar sobre o significado da vida do dia a dia. Estão frustrados ao perceber a falta de vontade da igreja em dar o mesmo peso moral e teológico aos assuntos que mais afetam a sociedade.

Comunidade  Ainda mais importante é que, para muitos jovens, a igreja não proporciona os laços comunitários apropriados à sua expectativa. Um jovem me escreveu recentemente: “Quando alguém está passando por uma dificuldade, será que pensa imediatamente em procurar a igreja porque sabe que será amado e compreendido? Ou a igreja é o último lugar para alguém se abrir e pedir ajuda? Geralmente, é a última opção”.

Para jovens que vivem num mundo pós-moderno, estar “certo” vai levá-lo somente até determinado ponto. Você pode falar a verdade com eloquência, pode estar correto em cada detalhe, pode citar capítulos e versículos, e, mesmo assim, eles vão sair da igreja se não sentirem uma profunda e calorosa aceitação.

Propósito e confiança  Os jovens também se afastam da igreja porque estão cheios de ideias, opiniões e energia, mas não encontram lugar para compartilhá-las dentro da igreja. Não que creiam que a igreja não seja importante para eles; ao contrário, creem que eles não são importantes para a igreja! Assim, podem permanecer dentro por um tempo, por uma questão familiar ou social, mas, no fundo, não sentem mais que pertencem a essa comunidade.

Chamado à ação

Não tenho palavras para expressar a profundidade da minha convicção de que devemos dar aos jovens um lugar importante na igreja. Isso não deve ser apenas “mantê-los ocupados”. Devemos dar-lhes um alto nível de confiança, incluindo-os nas decisões importantes da igreja, e procurar envolvê-los de um modo que diga: “Queremos ouvir a voz de vocês”.

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Tanto para os adolescentes como para os jovens, “confiança” é o pivô sobre o qual giram muitas dessas questões. Não o tipo de confiança que diz: “Vamos lhe dar tal responsabilidade e, após um tempo, vamos lhe avaliar”. Ao contrário, falo de um tipo de confiança que liberta e capacita os jovens a serem participantes no planejamento do culto e do testemunho de sua congregação; uma confiança que reconhece que alguém não precisa ter 40, 50 ou 60 anos de idade para ter um fervoroso desejo de servir a Deus; uma confiança que reconhece que o seu amor pela igreja é tão profundo quanto o meu; e que eles também escolheram esse lugar como seu lar espiritual.

Será que a atitude deles em relação a essas coisas, às vezes, pode ser diferente da minha expectativa? Sim, talvez. Corremos algum risco? Pode ser. Porém, o risco de não confiar em nossos jovens é muito maior. Pois, se não confiarmos neles, confirmarmos de verdade, eles simplesmente irão embora.

O pastor Jan Paulsen foi presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia entre 1999 e 2010. Ele possui doutorado em teologia pela Universidade de Tübingen, Alemanha. Retirado de Adventist World, outubro de 2009, p. 8-10 (adaptado).